Conversamos com Theo Szczepanski

Conversamos recentemente com o Liber (você pode ler AQUI) e já que ele e o Theo Szczepanski vão estar aqui na Itiban sábado, mandamos umas perguntinhas por email pro autor de A grande cruzada. Dá uma olhada:

O que o levou a querer fazer a HQ A grande cruzada?
Theo – Tenho particular apreço pelo período medieval e a HQ também é uma retomada de obsessões infantis como os álbuns do Príncipe Valente, de Hal Foster. Acho tal cenário bastante adequado para colocar questões que persistem na história humana, como o obscurantismo e suas aplicações.

Por que a cruzada das crianças como tema de HQ? Como você chegou a esse tema?
Theo – Uma vez que defini que a HQ seria ambientada na Idade Média, passei a pesquisar o período, que é longo e com inúmeros eventos importantes. Quando criança, eu lia livros de História a respeito da Idade Média – Joana D’Arc, Guerra dos 100 Anos, etc. Nunca saíram de minha cabeça relatos das Cruzadas como o que descreve um ataque a Jerusalém em que a população local foi massacrada a ponto de as estreitas vielas virarem rios de sangue – o nível desse rio chegaria aos tornozelos dos cruzados. As Cruzadas são eventos muito interessantes, mas uma Cruzada das Crianças é ainda mais. O fato de tais eventos não terem muita definição histórica também abre diversas possibilidades, já que eu definitivamente não tinha intenção de fazer um documentário.

Como foi a experiência do financiamento coletivo?
Theo – Um pouco estressante a princípio, já que não sou adepto a excessos de exposição pessoal – e percebi que muitas campanhas, projetos ou divulgações de trabalhos são baseadas nisso, na personalidade do autor. Apostei na exposição do trabalho e felizmente deu certo. Ainda estou surpreso, porque, se dependesse de meu social networking (virtual ou real), jamais obteria êxito. É inspirador que o projeto tenha tido tal resposta por causa do projeto em si, não porque sou legalzão.

Fala-se em uma nova cruzada do ocidente contra os árabes por conta dos ataques à Europa por extremistas e os ataques das forças armadas europeias na Síria. O que seria uma Cruzada das crianças no século 21?
Theo – A narrativa da Cruzada vem sendo utilizada com frequência em diversos contextos. É parte do marketing de igrejas e também de organizações políticas. Tanto o Bush pai quanto o filho utilizaram o termo nas intervenções no Oriente Médio, mas do o outro lado também apela-se para esse discurso. O Estado Islâmico tem uma revista, uma espécie de Veja, só que menos tosca, em que eles divulgam sua versão da história. Quando é colocada a foto de um líder ocidental, a legenda é algo como “O primeiro ministro do Reino Unido, o CRUZADO David Cameron”, ou então uma foto do Papa e a legenda “o Papa dos Cruzados do Ocidente”. Uma das teorias para a existência de uma Cruzada das Crianças seria um erro de tradução de um termo em latim para “pobres” ou uma variante de termo utilizado por representantes da Igreja ao se referir a pessoas simples, do povo – esse modo paternalista de se referir ao povo como “meus filhos”. Como as Cruzadas anteriores foram feitas por exércitos regulares e nobres, uma nova Cruzada com plebeus seria uma “Cruzada de Crianças”, ou seja, os mais simples e vulneráveis. A versão século 21 somos todos nós, levados a acreditar em diferentes fábulas propostas por líderes, através da mídia; o front compostos por guerreiros iludidos ou simplesmente desonestos com a própria capacidade de raciocínio; e as diversas vítimas, seja em Paris ou em alguma vila no Oriente Médio, onde as crianças têm o status de “fun-size terrorists”, segundo os operadores de drones. Aos olhos dos líderes, mídia e diversas corporações, somos todos crianças.

Como a música alimenta os quadrinhos que faz e os quadrinhos que faz alimentam sua música?
Theo – São campos indissociáveis. Não consigo elaborar muito a respeito, porque sequer vejo diferentes disciplinas como sendo independentes umas das outras. Entendo desenho, música, literatura e filmes como uma única narrativa em constante contaminação mútua.

É isso! Cai na Itiban amanhã a partir das 16h, que Theo e Liber Paz vão conversar, autografar e ainda vai ter show da Mecanotremata.

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