Entrevistamos Liber Paz

Liber

Sábado tem lançamento da HQ As coisas que Cecília  fez do Liber Paz aqui na Itiban. Pra aquecer o bate-papo, mandamos umas perguntas por email pra ele:

Como a ideia da história da Cecília surgiu? Não falo exatamente da trama, mas a vontade de falar sobre o que a história fala (não digo o que é porque senão vira spoiler)?

Liber Paz – Essa história trata de sensações que me marcaram. Vão desde a vertigem que se sente ao ver a menina que você gosta escolher outro cara a caminhar com os amigos de madrugada voltando de um show, a música e o álcool ainda zunindo nas cabeças. Mais do que tudo eu queria falar sobre amizade e desejo, a vontade de encontrar alguém, as expectativas e decepções. Quando era adolescente, eu chamava essas sensações de “canções com sabor de madrugada”. Achei que esse tipo de coisa ia ficar na adolescência, mas estou pra fazer 40 anos e ainda sinto coisas assim. Acho que não amadureci… hahahaha!

Como você relaciona sua vida profissional – professor universitário – com os quadrinhos?

Liber Paz – Provavelmente a atividade que me dá mais prazer é lecionar. Amo o contato com os alunos, a sala de aula. Acho que acontece uma troca de histórias e saberes ali que me faz muito bem. Muita dessa energia e pensamentos me motivou enquanto eu estava produzindo o álbum da Cecília. Eu imaginava como leitores muitos dos meus alunos e alunas e pensava se a história significaria para eles e elas o que significava para mim.

O amor por histórias em quadrinhos eu sempre tive e felizmente consegui trazer isso pra vida acadêmica, quando me tornei professor do curso de Design. Além das aulas, onde leciono ilustração, desenho e projeto gráfico, eu comecei esse ano um doutorado onde desenvolvo um projeto de pesquisa que tem como objeto de estudo as histórias em quadrinhos. Lógico que levar pesquisa e produção de quadrinhos é meio que fazer um malabarismo com o tempo e energia, mas, quando paro pra pensar, acho que dei muita sorte, profissionalmente falando.

Quais são suas influências para as HQs que faz , especificamente, quais são as referências pra As coisas que Cecília fez?

Liber Paz – A minha maior influência provavelmente são os quadrinhos que Neil Gaiman escreveu durante sua fase de Sandman. Tem também um bocado de Estranhos no Paraíso, de Terry Moore, mas são histórias como a minissérie da Morte ou Um Jogo de Você do Gaiman que me inspiravam pra valer. Acho que a coisa mais fascinante do Gaiman é como ele escreve bem os personagens comuns, as pessoas. Os diálogos são ótimos e muito verossímeis. Agora me veio na cabeça uma história da saga Vidas Breves, que tinha a deusa Ishtar trabalhando como dançarina. O fantástico ali era potencializado justamente pela naturalidade e vida dos personagens comuns.

Outro gibi que mexeu muito comigo foi Xampu, do Roger Cruz. Eu li a primeira versão, uma histórinha de 3 páginas, lá por 1998 e achei tão bacana o modo como ele conseguiu captar as relações, sensações e atmosfera das bebidas, músicas e paixões que pensei comigo: “um dia quero escrever uma história assim”. Eu tinha isso na cabeça quando fui fazendo Cecília.

Quadros de As coisas que Cecília fez, de Liber Paz

Qual é a diferença entre participar de coletâneas (como Cidade sorriso dos mortos-vivos) e fazer uma HQ inteira longa por conta própria?

Liber Paz – Ah, histórias curtas são legais de fazer porque são rápidas. Você termina em uma, duas semanas. No caso de coletâneas, você recebe um convite e às vezes uma orientação ou um tema. E tem um prazo. Então, acaba sendo algo mais “profissional”, no sentido de que você tem uma meta definida e um prazo, o que não dá muito espaço pra períodos de “ócio criativo”, experimentações e indecisões. Fazer uma história longa requer um planejamento, mas também um espaço para experimentar, para deixar certas ideias madurarem. Apesar de eu ter ideia do corpo geral da história e de pra onde eu ia, existiam detalhes que me faziam ficar um tempo matutando, procurando soluções. Por exemplo, eu não sabia o que fazer com Cecília depois que ela saía da festa. Cheguei a cogitar dela ser assaltada na rua, no caminho pra casa. Mas achei que isso não funcionava dentro da história. Daí que um dia me veio a ideia que acabou virando a sequência no elevador. Por necessitar de mais tempo e espaço, penso que as histórias longas oferecem mais oportunidades de improvisos em quantidade de detalhes e soluções narrativas.

Quais são os próximos projetos?

Liber Paz – Depois da Cecília bateu uma vontade danada de fazer mais quadrinhos. Estou com um projeto baseado numa história do Ray Bradbury, que quero lançar na Gibicon, em Curitiba, agora em maio de 2014. Pra quem tiver curiosidade de procurar, é o conto “A Sirena de Nevoeiro”, no original em inglês é The Fog Horn. Basicamente é uma história de monstro marinho que me impressionou um bocado quando eu era guri. A princípio pensei em fazer uma adaptação, mas já mexi e mudei tanta coisa que descaracterizei totalmente a ideia original. A única coisa que permanece é que será uma história de monstros gigantes.

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2 respostas para Entrevistamos Liber Paz

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