Conversa com Chico Félix e Pietro Luigi

Já que sábado, a partir das 15h, o Chico Félix e o Pietro Luigi autografam suas HQs aqui na Itiban, conversamos um pouquinho com eles por email. Segue o papo:

Pietro Luigi autografando na Itiban em 2014

Fale um pouco da relação da música com as HQs que faz.
Pietro Luigi – Eu consumo bastante música, de forma obsessiva as vezes. Sei lá, ainda nutro aquele tesão adolescente em descobrir uma banda ou um som que eu nunca tinha ouvido antes, esse tipo de coisa “inútil”, meio de nerd. Daí a relação disso com o meu trabalho varia, ela se dá de muitas formas, por exemplo: o que eu escuto muitas vezes me proporciona uma solução estética pro meu trampo, por outras vezes é a letra (e eu sou vidrado em boas letras, curto muito caras que são mais escritores que músicos, tipo lou reed, leonard cohen, mr catra, etc. – que têm um argumento forte e transmitem um feeling legal, como se alguém materializasse um pensamento seu, o que acaba dando uma direção pra história). Às vezes isso acontece e forma bem literal, como a Miss Lexotan que é uma música do Júpiter Maçã.
A outra relação é o de “documentar” e divulgar coisas praticamente desconhecidas e que são geniais, como é o caso da Radiola Selvagem, que eu faço em parceria com o meu bróder, Marcelo Mara. O Marcelo tem um puta trampo de pesquisa envolvendo a música independente brasileira, daí ele sempre me mostrou muita coisa diferente e exótica. Foi aí que eu tive a idéia de fazer esse lance da Radiola, por exemplo na edição #3 da revista, que é sobre o Textículos de Mary, uma banda de travestis da Bahia que pouca gente da minha geração ouviu falar e que é deveras pertinente nesse cenário contemporâneo onde se discute muito a questão de gênero e sexualidade.
E tem essa minha relação mais “ativa” com a coisa toda que é fazendo capas de disco, posters e etc para as bandas que eu curto. Eu comecei assim, fazendo zines e levando pros shows, daí comecei a fazer os cartazes, e hoje em dia muita banda me procura. Faço isso porque gosto dessa coisa da galera fazendo acontecer, eu sempre quis estar “no meio desse furacão”, saca? Eu escolhi desenvolver uma identidade própria no meu desenho, assim como as bandas que eu curto também buscam essa identidade no som. Acho interessante pensar que pra cada cena musical, existe um grupo de artistas empenhados em dar uma cara a essa cena, tipo os grafiteiros com o hip hop, aquela galera psicodélica do anos 70, ou até mesmo a relação do Eliphas Andreato com o samba, enfim, sempre existiu essa convergência de idéias e ideais entre os músicos e artistas gráficos.

Pietro, os banheiros por aí andam muito selvagens?
Pietro Luigi – Olha, é cada um que a gente vê por aí, que fica difícil escolher o mais podrera. Mas assim, de uns anos pra cá os banheiros, mesmo os de bares toscos, tem ficado mais limpos e tal, até os de rodoviária tão aderindo essa modinha, não sei o que está acontecendo.
Mas um dos mais legais é o banhero da lanchonete do Jão do Ratos de Porão que tem um aviso mais ou menos assim: “Não zoe a privada, pois a mesma mão que limpa o banheiro é a mesma que prepara a comida”, achei bem sucinto o recado dos caras.
Agora, os campeões mesmo são os banheiros da Argentina: em vários deles a galera deixa aceso um incenso, tinha um inclusive que tava sem luz, daí ficou mó romântico a luz de vela, demais!

O que liga todas as 3 Banheiro selvagem?
Pietro Luigi – Bem, nunca tinha pensado muito nisso antes, só fui fazendo, daí você me vem com essa pergunta e eu comecei a reconhecer alguns padrões, tipo:todas as 3 edições envolvem crises pessoais, uma busca desesperada por mudança. As 3 edições foram feitas em lugares diferentes: Londrina, São Paulo e Curitiba. As duas últimas edições foram uma decisão de última hora.
Agora no sentido mais “corpo editorial” da coisa, as 3 revistas trazem alguns personagens que eu já vinha trabalhando no meu site, mais essa coisa “jornalística” das músicas. Se eu pudesse definir sobre o que é O Banhero Selvagem seria algo assim: uma revista provocativa feita por pessoas que seguem suas paixões. Por isso sempre têm os textos do Rogério Skylab, que escreve compulsivamente crônicas, poesias, ensaios, músicas, twitadas, enfim o cara é demais, e sempre ferino. O Marcelo é um pesquisador compulsivo de música independente e cultura underground em geral, assim como o Andye Iore que segue essa linha, só que mais voltado pro psychobilly, garage rock.
É assim também com os desenhistas. O Chico Félix além dos seus próprios zines e revistas publica em vários zines gringos relacionados a punk rock, e também sempre tá tocando em algumas bandas. O Vitor Bello é mais novo e já vi trabalhos dele em diversas revistas (Goró, Prego, etc), além dos seus próprios zines. É impressionante, esse cara tem uma puta capacidade de fazer histórias longas, a “Gerson” que tá no último Banhero é simplesmente animal, é tipo uma história policial com um humor bem sacado, enfim, uma boa história, coisa impressionante nesse meio independente que na maior parte das vezes o experimentalismo e a escatologia se sobrepõe a narrativa e ao entretenimento (nada contra, é só outro jeito de fazer as coisas). Também gosto muito do trabalho do David Elshout, que tem um jeito bastante visceral e elegante de ilustrar, e sempre tá me mandando material.
Enfim, tento trasmitir essa coisa do “pessoas que seguem suas paixões”, também nos anúncios. A maioria dos anunciantes têm essa relação com o DIY, seja um bar que deixa as bandas tocarem lá, seja uma certa comic shop que sempre tá agitando a cena de quadrinhos (mainstream e underground), uma marca de camisetas que está ligada numa linguagem mais autoral dos seus ilustradores, uma produtora pornô que há anos rala num circuito limitado, enfim, é tudo sobre gente que busca fazer acontecer por outras perspectivas.

Chico Félix

Fale um pouco da relação da música com as HQs faz.
Chico Félix – Quando eu era moleque, cresci lendo a Animal, Chiclete com Banana, MAD e isso abriu minha noção do mundo. Elas falavam de literatura Beat, Screamin Jay Hawkins, filmes obscuros, arte contemporânea, gangs, zoavam a autoridade, enfim… quando eu comecei a me envolver com música e etc, tudo isso já estava lá. E a cena aqui de Curitiba em especial, tinha gente muito inteligente que se interessava por todas essas coisas e mais outras que eu nunca tinha ouvido falar: situacionismo, colagem, política, além de música diferente de todos os lugares do mundo que não tocavam em lugar nenhum. Uma coisa foi alimentando a outra, você vai vivendo e tendo suas experiências, vai reagindo ao mundo e isso vai se misturando, a diferença entre vida e arte vai ficando menor. Os quadrinhos e a música vem do mesmo lugar, da vontade de tentar articular alguma coisa que às vezes você nem entendeu direito ainda, de fazer sua parada, de criar sua própria diversão, de um monte de coisas ao mesmo tempo…

Como foi trabalhar com o pessoal da Ugra?
Chico Félix – A Ugra já vendia o Gente Feia e sempre deu uma força, mas esse ano participei de alguns projetos com eles, fiz uma edição do zine Rabisco e participei do projeto Singela Homenagem, onde cada cartunista fazia uma caricatura do outro e depois trocava o original (eu fiz o Pietro e o Pablo Carranza me desenhou). E nos demos bem sempre, acho que temos uma mentalidade parecida, punk rock, contracultura, foi muito fácil fazer coisas juntos. Na verdade, eles têm que ter muito mais paciência do que eu nessa relação, hehehe.

Qual a diferença de Crü pra Gente feia na TV?
Chico Félix – O Crü é o primeiro número de uma coleção de quadrinhos idealizada pela Ugra, chamada Ugritos, cada número terá um autor diferente do anterior e a ideia deles é um formato pequeno, simples e acessível pra qualquer um. O primeiro foi o CRÜ. A principio, quando o Douglas e a Dani me convidaram, eu já sabia que teria pouco tempo pra entregar meu número, daí veio a ideia do nome. Conforme fui escrevendo as histórias e organizando, achei um ponto comum – é uma vida através de várias histórias: o mundo, infância, transição pra vida adulta, problemas e morte. E falando assim parece bem mais pretensioso do que é. São quadrinhos com o espírito sacanageiro de sempre, só que achei engraçado fazer um álbum conceitual no formato mais despretensioso de todos. E o GFNTV é minha revista, publicada pelo meu selo Bera Mosca e pela PREGO, o formato não é o mesmo, o GFNTV é uma revista no formato americano, com mais páginas, tem uma seção de texto (na #2 tem uma entrevista com o artista Marcelo Bacellar), mas tem pontos em comum, como a ideia de uma revista enriquecida com vitaminas e sais minerais mas acessível, rápida e rasteira, a um preço razoavelmente barato.

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Então é isso: sábado vem pro show,  conhece a fachada nova da loja e ainda garante autógrafo com esses dois figuras aí.

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