Conversamos com Leandro Melite

Na segunda conversamos com Sergio Chaves, agora é a vez do Leandro Melite, autor de Dupin falar. Lembrando que os dois, junto de Allan Ledo e Alexandre Lourenço estarão na Itiban no sábado.

LM-FOTO

Dupin tem uma relação muito próxima ao conto de Edgar Allan Poe, Os Assassinatos da rua Morgue, mas não o vejo como uma adaptação do texto. Como você o vê?

Melite – O vejo mais como uma apropriação, acho. Algum tempo atrás havia muitas adaptações literárias porque o governo comprava e então acho que passava pela cabeça do autor a possibilidade de ficar rico com esse filão. Pra mim foi importante saber que o governo estava falido e não ia ter chance de eu entrar nessa e então pude fazer o meu livro em paz. “O governo não está comprando mais nada” alguém me disse e então foi um alívio. Sem nenhuma chance de ser atrapalhado pela ideia de me enquadrar no esquema de “livro pra escola”… Até porque acho que o Machado de Assis entra nessas, coitado. E o pior é que ninguém, em tudo que é adaptação, não vi ninguém pensar a frente do texto convencional, dialogar com o texto… Todos fizeram coisas de época, retratando os costumes e tal. Tudo certinho… Pra que que eu quero ler isso se eu posso ler o texto original, me fala? Não faz sentido mesmo. Então a minha proposta foi sempre dialogar, trabalhar a narrativa em cima disso. Se o Dupin original gostava da alta cultura, o meu protaginista foi influenciado a vida inteira pelos super-heróis e por isso tem a fúria incendiária de se tornar um, ele precisa disso desesperadamente e convence um cara burro a vir com ele, pra no máximo servir de testemunha da sua grandeza. Isso se parece mais com Dom Quixote do que com Poe. Acho que é uma adaptação de Dom Quixote, então. Fui pela beirada.

Por que Poe e por que esse conto?
Melite – Poe queria ser poeta, ele não queria ter contos publicados em jornais. Isso era infame pra ele. Você vai ver qualquer biografia dele e vai entender que ele era esse tipo de cara pedante que arrota erudição na cara dos demais. Um cara que geralmente se metia em brigas porque falava mal dos outros escritores e não bebia tanto quanto falavam. Isso é uma mentira do biógrafo que por acaso era um cara que Poe detestava, vai vendo. Mas de qualquer forma, Poe queria ser poeta, mas tinha pagar contas e tinha se casado com a prima cadáver (a ponto de morrer a qualquer momento) e precisava sustentar e menina mais a mãe dela. Então, dava aulas de literatura inglesa para as damas da alta sociedade que se encantavam com o modo como ele falava daquilo. E veja só, Lewis Carroll dizia que ele não conseguia falar direito sobre uma só coisa. Dizia que ele não tinha uma conversa muito, como dizer, consecutiva. Mas você se deixava fisgar pela prosa viva dele. Eu enrolei e enrolei pra dizer que me aproximo dele nesse ponto, acho… Acho que queria ser mais de qualquer forma… Queria ser um autor melhor, como dizer de “nível”, desses que ficam na Torre de Marfim, morando fora do país, com a conta cheia de bufunfa e que podem criticar a vontade quem vende prints do Super-homem na CCXP… De camisa bem abotoada, de colete… sapato de bico que mata barata no canto… Acho que eu queria ser esse cara… Mas bem, eu não sou… Estou começando a ficar careca e bem… Poe nunca seria um bom poeta, no máximo um bom poeta técnico, e cheio de picaretagens… Que ficaria famoso por essa via do terror… Bem ele inventou um gênero, não é? E não só isso: Poe inventou um tipo de leitor… É o Borges quem fala isso, e não eu… Quando Poe disse pro leitor que havia um mistério ali, e que haviam informações que o leitor deveria adivinhar, ele mudou não só a literatura, mas o modo como o leitor enfrentaria a literatura dali pra frente. E por isso eu quis a Rua Morgue, porque eu queria quebrar a adaptação literária em mil pedaços.

Dupin

Dupin

Qual a importância da literatura nos seus quadrinhos?
Melite – É completa… Acho que assim que eu começo a fazer qualquer obra ou história, sempre a penso como literatura. Não me sinto fazendo uma obra em quadrinhos, isso eu digo sem qualquer tentativa de denunciar uma certa inferioridade dos quadrinhos, de maneira nenhuma. Acho que os quadrinhos alcançam coisas que a literatura jamais vai alcançar. Até algum tempo atrás eu tinha a impressão de que os quadrinhos eram uma evolução natural da literatura. Eu estava tão mergulhado nessa história, que me lembro o momento em que numa certa manhã, eu estava fazendo algum serviço doméstico, e então parei aquilo e corri até a minha mulher e disse: San, eu acho que dentre alguns anos a literatura vai acabar…. Sabe? Como assim?, ela respondeu. Bem, eu disse, todos os escritores vão fazer desenhos também… entendeu… tudo que for livro vai sair com desenhos… A literatura só com letrinhas vai meio que se tornar o que a poesia é hoje, uma coisa muito de nicho… Eu disse como quem havia descoberto um continente e então ela ficou me olhando com uma cara meio torta e depois disse: Não fala merda. Sempre vai ter literatura. Não fala merda. E foi isso.

Quadrinhos são literatura pra você?
Melite – Em algumas obras eu acho que encontro essa tal coisa que eu achava que era, ou nomeava como literatura, mas acho que não expressa bem o que eu sinto em relação a obra ou as passagens da obra. Acho que está mais para uma momento poético… uma poesia mais como estado do que como objeto. É um momento que passa e se conecta de maneira muito individual com o leitor, comigo mesmo. Uma frase, uma sequência, um modo de terminar uma cena… Talvez nem mesmo aquilo é vicenciado durante a leitura, mas uma sensação que vem depois, do nada. Aquilo te assalta e você conecta aquilo com a sua vida íntima. O modo como Krazy Kat vê a vida… As passagens mais corriqueiras no cotidiano de Karl Ove Knausgard… O filho de Peggy e Pete em Mad Men. É mágica pura… Isso é mágica. Ouro.

Tabloide

Tabloide

Fale um pouco sobre Tabloide, seu próximo trabalho.
Melite – Não vou falar muito. Acho que é legal as pessoas não saberem muito sobre algo antes que aquilo seja uma coisa realmente concreta, que esteja a mão. Mas de qualquer forma somos empurrados a falar sobre as coisas que não existem completamente porque isso se tornou um modo de fazer publicidade… Bem, mas… Tudo que vou falar é que é um capítulo na vida de uma garota que ama o sobrenatural, mas é soterrada pelo real. Desde muito criança ela é fascinada por essas coisas que ela sente que existem em algum ponto da vida, coisas que vão se revelar pra ela… E ela tem um jornal que dá essas notícias malucas e por isso todos no meio jornalístico fazem pouco dela. Mas ela não está nem aí, porque o jornalzinho dela não atende a nenhum interesse político ou porra nenhuma dessas… E ela se chama Samantha, ela é gorda e fala o necessário. E o Tabloide é isso. Mas principalmente o que o Tabloide não é: ele não é um livro para agradar o Facebook ou o meu círculo de amigos. Um livro que levanta temas atuais de propósito, para causar discussões sociais… Não, acho isso de uma breguice onomatopeica… Ele não é uma história sobre uma mulher que está fora do peso (?) e solitária (?), porque ela vai se afirmar a qualquer coisa… Não, eu sou um individualista… Que ninguém me confunda… Vamos adiante… E acabei falando muito.

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2 respostas para Conversamos com Leandro Melite

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