Conversamos com Alexandre Lourenço

Alexandre

AMANHÃ, o último lançamento do ano: Bianca Pinheiro e Gregório Bert com o seu Meu pai é um homem da montanha e Alexandre Lourenço com Robô esmaga. Conversamos com Greg e Bianca ontem. Hoje é a vez do Alexandre:

Como surgiu Robô esmaga?

Alexandre – O Robô surgiu em 2010. Eu passei muito tempo pensando em como eu gostaria de fazer quadrinhos, mas demorei muito tempo pra começar, de fato, a fazer. A única coisa que tinha produzido, até então, tinha sido uma página que enviei pro concurso da Fnac de novos talentos. Não lembro muito bem o ano, 2008 ou 2009, talvez.

Depois de perder o concurso, a minha única página pronta ficou lá parada enquanto desenvolvia, na minha cabeça, a minha graphic novel de estreia que teria 500 páginas e ganharia um <pasme> prêmio Eisner. Fiquei nessa até que um amigo meu que tinha acabado de criar um blog me convidou pra postar alguma coisa lá. Eu falei que tinha pronto uns quadrinhos curtos (mesmo tendo só um). Ele acabou postando.

Como conseguia terminar essas histórias, que cabiam em uma só página, deixei de lado a minha graphic novel de 500 páginas, que nunca sairia da minha cabeça, pra produzir essas histórias mais curtas que poderia terminar. Comecei a fazer e assim que juntei umas 10 pensei em colocar tudo num lugar só.

Criei inicialmente um blog chamado Gibis Darjeeling porque tinha acabado de assistir Viagem a Darjeeling e tinha vontade de ser o Wes Anderson. Isso durou um pouco (o nome do blog, não a vontade. essa durou mais). Depois de uns 2 ou 3 meses, achei que o nome não tinha muito a ver com os meus quadrinhos e acabei trocando pra Robô Esmaga.

Não sei também se Robô Esmaga tem muito sentido e já pensei em trocar, mas acho que tá tarde pra isso.

Por que esse título?

Alexandre – O nome surgiu numa história curiosa. Eu não sei exatamente como isso aconteceu. Alguém em algum lugar estava muito entediado com o trabalho, sei lá. Bom, uma vez eu estava comendo num restaurante chinês com uns amigos, nada demais. Só que no final da refeição, quando fomos pegar o biscoito da sorte, todo mundo da mesa recebeu algum tipo de mensagem sábia, enigmática, algum provérbio chinês antigo de sei lá quantos mil anos atrás. No meu biscoito estava escrito, simplesmente, “O Robô Esmaga”.

Sei lá o que quiseram dizer com isso. Mas gostei da frase. Me soou muito bem. Ela ficou na minha cabeça por algum tempo. Quando criei o blog, achei que servia.

Você tem histórias longas? Vê diferença entre as narrativas curtas e as longas para o seu processo criativo?

Alexandre – Estou no processo de criar a minha primeira história longa. E é bem difícil. Histórias curtas se resolvem com a ideia. Elas aparecem do nada, meio que prontas. Eu tento só não estragar. Histórias curtas, acho eu, são frutos de constante observação. Você presta atenção tempo suficiente pra que tenha alguma coisa a dizer. Esse tem sido o meu processo criativo pra maioria das histórias que publico no Robô esmaga.

Histórias longas exigem planejamento. A ideia não basta. Ela não tem fôlego suficiente pra chegar ao final. Precisa trabalhar a ideia. Pensar na história. Em desenvolver os personagens. Por que as coisas que acontecem. Quando elas devem acontecer.

Gosto muito da imagem criada em alguns filmes onde o escritor, muito emocionado, senta e, em poucas horas, termina um livro de 500 páginas movidos por nada mais que inspiração e um coração partido… Gosto dessa ideia. Gostaria de ser assim. Não sou. Acho que uma graphic novel não se faz apenas com inspiração.

Tenho folhas A3 coladas na parede da minha casa com esquemas de como a história vai chegar ao final fazendo algum sentido. É um processo bem menos romântico, bem mais calculado e igualmente prazeroso.

Mas não sou o cara mais esperto que eu conheço. Há de ter uma forma mais fácil e melhor pra fazer isso.

Você é formado em Letras. De alguma forma o curso te ajuda na produção de quadrinhos?

Alexandre – Na época do vestibular, ia fazer design, mas como achava que já sabia desenhar, pensei em resolver o segundo dos dois únicos pilares da produção das histórias em quadrinhos: o roteiro.

Falei que não era o cara mais esperto que conheço.

Fui fazer letras achando que sairia dali um escritor. Depois de algum tempo descobri que não, eu não sabia desenhar e que fazer letras não me transformaria num escritor. Mais tarde, descobri que saber escrever e saber desenhar, assim, de forma isolada, não torna ninguém um bom quadrinista.

Bom, apesar dessa frustração, o curso foi muito importante por me apresentar a uma literatura que passou despercebida no segundo grau. Mesmo lendo uns 10% do que deveria ter lido, durante o curso, entrei em contato com uma produção artística muito rica. E como o curso de letras aborda diversos aspectos da literatura, pude entender um pouco melhor os movimentos artísticos, como a linguagem é empregada no texto e como tudo isso pode ser aplicado. E experimentado em outras formas de expressão, como o quadrinho.

Embora tenha sido um aluno de regular pra mais ou menos, acho que ter feito Letras me ajudou bastante na produção de quadrinhos. Não virei um escritor e ainda desenho mal, mas acho que melhorei, pelo menos um pouco, como quadrinista.

Como chegou a esse estilo de desenho?
Alexandre – Eu sou um desenhista, confessamente, limitado. Acho que sempre desenhei o que consegui e não necessariamente o que quis desenhar. Não tenho uma facilidade em criar composições que funcionem. Os meus retratos nunca parecem com os retratados. Quando me aproximo, é por sorte. Não sei o que fiz pra ter chegado ali. Aprender a desenhar é exigente demais. Muita disciplina. Um olhar atento. Não sei se tenho isso. Eu sou muito preguiçoso.

O legal é que a prática te desenvolve mesmo no que você não sabe fazer. Apesar de todas as minhas limitações, de toda a preguiça, de toda a ausência de um olho clínico e toda a morosidade, apesar de tudo isso, acho que consegui me desenvolver com alguma coisa que se caracteriza por mim. Eu tenho, mesmo que de forma um tanto cafajeste, algo perto de um estilo. Uma mistura de senso estético e perseverança. Muita tentativa e erro, até chegar a um lugar que eu me sinta satisfeito.

Acho que cheguei a esse traço insistindo na ideia de querer fazer quadrinhos mesmo sem saber.

Esse papo continua amanhã, na Itiban, a partir das 16h. Vem pra cá!

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