Conversamos com Alice Ruiz

Alice Ruiz: “Na HQ não tinha encomenda, era eu com minha imaginação, e, claro, contando com a imaginação do desenhista”. (Foto: Eduardo Macarios, cortesia do fotógrafo)

Alice Ruiz: “Na HQ não tinha encomenda, era eu com minha imaginação, e, claro, contando com a imaginação do desenhista”. (Foto: Eduardo Macarios, cortesia do fotógrafo)

Sim, Alice Ruiz também curte (e fez) quadrinhos! No final dos anos 1970, Alice e Paulo Leminski integraram o time de roteiristas da finada Grafipar, cujas revistas foram um sucesso de vendas sob a linha editorial “quadrinhos eróticos”.

As histórias da dupla de poetas, contadas no traço de artistas como Claudio Seto, Flavio Colin e Mozart Couto, entre outros, são reunidas agora em Afrodite – Quadrinhos eróticos (Editora Veneta), com organização de Worney Almeida de Souza. Além do gancho do sexo, destaque também para a pegada feminista que Alice Ruiz trouxe às HQs da revista Rose, voltada ao público feminino, da qual era ainda coeditora.

O lançamento de Afrodite acontece neste sábado (28) na Itiban, com direito a bate-papo e sessão de autógrafos com Alice. E, como é tradição por aqui, a poeta adianta um pouquinho do que vai rolar no evento: em conversa com a jornalista Yasmin Taketani (nepotismo, sim), Alice Ruiz fala sobre sua relação com as histórias em quadrinhos, seu compromisso com a linguagem, feminismo e outros assuntos.

Seu primeiro roteiro de HQ surgiu a partir de Dalton Trevisan: na história, uma personagem do escritor se torna real e o coloca no papel de subjugado. Soube de algum comentário que Trevisan possa ter feito a respeito?
Alice – Acho que passei uma impressão errada. A minha ideia não nasceu a partir de Dalton. É que nunca me agradou a forma como a maior parte dos autores masculinos apresentavam as mulheres. Dalton, em especial. Então, criei uma história sobre uma personagem feminina que adquire vida e aprende tudo com seu criador, inclusive a escrever e, através da escrita, dispor da história e da vida dele. Criei uma revanchista, risos. Não sei se o Dalton chegou a saber disso. E, como eu disse, serviria para “cutucar” vários outros autores.

Curiosidades à parte, como foi seu processo de aprendizado enquanto roteirista, escrevendo suas primeiras HQs?
Alice – Não houve propriamente um aprendizado. Eu saí fazendo. Mas já era leitora de HQs. Ler ainda é o melhor aprendizado.

E quais eram as suas leituras nos quadrinhos?
Alice – Acho que a primeira lembrança, na infância, são as tiras do Amigo da Onça, criado por Péricles Maranhão, publicadas na revista O Cruzeiro. Também me lembro de ver na casa dos primos alguma coisa da Luluzinha (criada e desenhada por uma mulher, Marge, em 1935), do Gato Félix e da Betty Boop. Deviam ter outros, mas foram esses que me chamaram a atenção. Especialmente as meninas, por serem uma raridade num universo de heróis meninos. Pelo mesmo motivo, na adolescência, a heroína Lorna, a rainha da selva. Não sei quem a criou, e deviam variar muito os desenhistas, pois seus traços mudavam. Acho que foi a única heroína de HQ de aventura, e inspirou algumas outras, que talvez sejam apenas uma tradução. Mais adulta, curtia especialmente os autores Jules Feiffer, Robert Crumb e Guido Crepax. Assim com no fim dos anos 1960 e começo dos 1970, as tiras dos Fradinhos, criados pelo Henfil e publicadas no Pasquim. Sem esquecer do delicioso humor crítico da revista Mad.

Passado esse primeiro ímpeto, já escrevendo roteiros, que aspectos do gênero te interessaram enquanto artista?
Alice – Criar o texto e criar/propor a imagem que o acompanhava. Eu já fazia isso na criação de filmes publicitários, mas na HQ não tinha encomenda, era eu com minha imaginação, e, claro, contando com a imaginação do desenhista. Nenhuma proposta de imagem que eu oferecia era rígida. Eram sugestões. Foi muito legal fazer essa parceria com vários artistas, muitos que nem cheguei a conhecer. O Claudio Seto, que comandava os quadrinhos, sabia que eu ficava esperando eles mandarem a história e sempre me avisava quando chegava. Aí eu ia para a sala dele e ficávamos analisando e curtindo detalhes.

Afrodite página interna

Seus roteiros para Rose parecem ter especial preocupação com a conscientização da mulher – em questão de sexo, relacionamento, carreira profissional –, quando não invertiam os papéis e colocavam o homem como objeto sexual, ou mero troféu. Havia um objetivo informativo, educativo nas histórias?
Alice – Tudo na revista Rose tinha especial preocupação com a conscientização da mulher, em todas as questões. Todas as pautas de matérias eram amplamente discutidas pelas três mulheres que tocavam a revista, Ligia, Ana e eu, para informar e esclarecer a condição feminina em nossa sociedade. Mas sempre com o cuidado de não tornar didático, excessivamente teórico. A HQ, que é naturalmente mais lúdica, tinha a função de falar das questões comuns a todas com um certo humor, mais leveza, e muitas vezes isso se dava invertendo os papéis, como uma forma de ironia.

Isso coloca seus roteiros mais próximos dos artigos feministas do que dos textos artísticos, literários?
Alice – Creio que muitos deles conseguem ser um híbrido entre o feminista e o artístico, mas é claro que nem sempre se consegue.

Você tinha alguma preocupação em relação à sua produção artística, sobretudo literária, tornar-se panfletária? Havia um limite? A escritora Vilma Arêas, sobre a questão de gêneros na literatura, diz: “Sou mulher, mas para escrever é preciso independência sob todos os pontos de vista, sexual e econômico”.
Alice – Concordo com ela. Minha poesia, por exemplo, tem uma musa principal que é a própria palavra. Meu compromisso maior quando faço poesia é com meu instrumento: a palavra. Um fazer poético capaz de rupturas dentro de sua própria linguagem pode ser muito mais revolucionário e subversivo do que um discurso ideológico e libertário, mas prosaico. Porque trata-se de provocar um outro jeito de ver. A partir do impacto poético, e não da teoria. Seja qual for o seu tema artístico, ele só será revolucionário se a linguagem o for. E isso já foi sacado há muito tempo, por Vladimir Maiakovski, no começo do século passado, disse ele: “sem forma revolucionária, não há arte revolucionária”.
É claro que alguns não concordam. Esses correm o risco de ver sua produção literária tornar-se panfletária. Não é meu caso. Os poemas que escrevi sobre a questão feminina tinham trama na linguagem. A maior parte dos ensaios feministas, também. E me parece que levar esse discurso para o roteiro de HQ também é, ou foi, de certa forma, bastante inovador.

A autora de um estudo acadêmico, pela Universidade Federal Fluminense, dos seus artigos feministas conta que, ao relê-los, você os achou “datados, muito específicos das suas preocupações feministas de militante apaixonada nos anos 1970”.
Alice – Não me lembro de ter respondido alguma pergunta sobre esses trabalhos. Também não acho que estejam tão datados, claro, felizmente conseguimos alguns avanços nos últimos 35 anos e, para a minha alegria, alguns temas abordados por mim, na época, já foram resolvidos. Mas surgiram outros. Por exemplo, o avanço das mulheres em vários setores gerou uma onda correspondente de ódio, medo e propostas de retrocesso, por um certo grupo masculino, que chega a ser assustador.

À época, houve algum tipo de debate com os quadrinistas sobre como representar as personagens (masculinas e femininas), pensando tanto nas características físicas dos brasileiros quanto em relação aos corpos perfeitos, sarados, idealizados?
Alice – Não especificamente. Não comigo. Talvez entre eles e o Claudio Seto. Mas acho que o culto à perfeição física e à eterna juventude não era tão neurótico como agora. Não numa revista feminista, pelo menos.

Afrodite - página interna

E como foi revê-las em Afrodite?
Alice – Eu tinha a maioria comigo. A novidade para mim é ver tudo reunido em livro, inclusive os roteiros sobre deusas e deuses gregos que escrevi para a revista de astrologia que editei, na mesma época. E claro, ter as histórias do Paulo junto. Me comove essa reunião nossa, via quadrinhos e erotismo.

Como é a sua relação com histórias em quadrinhos atualmente? Quais autores tem lido, quais gostaria de reler?
Alice – Fazia anos que não lia quadrinhos. Mas, graças ao Rogério de Campos, da editora Veneta, esse gênero está voltando a ocupar minha atenção.

O ex-diretor da Grafipar, Faruk El-Khatib, disse em entrevista à Folha, sobre o fechamento da editora: “Com a pornografia pura liberada, o pessoal não queria mais saber de HQ erótica”. Que atualizações você faria nas revistas caso fosse publicá-las hoje? O erotismo seria diferente? Haveria espaço para a diversidade sexual?
Alice – Será mesmo que só havia espaço para o erotismo porque a pornografia não era liberada? Será que o erotismo na literatura ou na HQ não tem sua própria graça? Não é ele uma expressão legítima que desperta interesse? Tenho minhas dúvidas. Acredito que existem sensibilidades mais refinadas que se movem mais pelo erotismo do que pela pornografia. Ou quero acreditar. De qualquer forma, a vertente erótica era mais uma exigência da própria Grafipar e, apesar de achar um assunto fundamental para a liberação da mulher, o erotismo não é exatamente um tema sobre o qual eu escreva muito.
Nunca pensei como seria trabalhar com isso hoje. Mas, a princípio, sou uma pessoa includente, logo, haveria espaço para a diversidade sexual.

Ainda pensando nos anos de Grafipar, de que maneira seu posicionamento enquanto feminista se transformou ao longo dos anos? Como vê as novas gerações de feministas?
Alice – Sempre estive atenta à condição feminina, embora não tão atuante nos últimos anos. Mas sempre atenta, e sinto que é hora de voltar a atuar. Certos direitos que conquistamos estão sendo ameaçados. Como disse Simone de Beauvoir, a atenção tem que ser constante, em todas as gerações, em todas as épocas históricas, porque o retrocesso está sempre à espreita.

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