Conversamos com Vanessa C. Rodrigues

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Gostamos de conversar com os autores antes dos lançamentos . Sábado, Vanessa C. Rodrigues e Pedro Franz estarão na Itiban pro lançamento de, respectivamente, Anunciação e Incidente em Tunguska. Segue o papo por email com a Vanessa.

Do que trata o Anunciação?
Vanessa – Basicamente, fala de um corpo em relação a outro. A dificuldade de um relacionamento, a necessidade de distância. E também em relação a um corpo que ainda nem é, um feto, uma gravidez. Entendi, depois de terminar esse livro, que tem algumas aproximações que são impossíveis. Anunciação, essa palavra carregada, é tema de várias pinturas e esculturas desde a Idade Média e olhando essa iconografia, agora, depois do livro pronto, percebi que em muitas delas há um anteparo e uma distância entre a Maria e o anjo que vem anunciar sua gravidez milagrosa (e indesejada). Não foi uma ideia a priori, mas agora entendo que o que quis falar nesse livro foi desse anteparo, que separa um corpo do outro. E como estamos, portanto, sozinhos, cada um de um lado da sala. Mas não que seja uma conclusão pessimista. Ao contrário, eu diria. Falo de amor também. Mas é que entendo hoje que o amor, o afeto, é o que acontece nessa distância, é um movimento.

Como foi o processo de escrita do livro? Difere do seu processo normal de escrita?
Vanessa – Eu acho que ainda não tenho um processo normal de escrita ou rotineiro, pelo menos. Talvez o que tem se repetido é que nunca tenho grandes rompantes de texto. Acho que porque trabalho todo dia editando e revisando textos alheios, eu aprendi mais a retirar do que a pôr. No caso do Anunciação, levei muitos anos. Não porque mexesse no texto todos os dias, mas que houve grandes períodos de silêncio. Um pouco porque trabalhei muito com outras coisas, e meu trabalho é ler e escrever, e me deixa um pouco cansada para partir para minhas produções, mas não é só isso. Acho que esse livro carrega com ele esta história secreta: da minha formação e aceitação como escritora. Então o silêncio e os intervalos longuíssimos até concluí-lo tem a ver com me aceitar como artista, com assumir isso e entender que isso é realmente essencial para mim. Ainda que eu não seja do grupo de quem escreve todos os dias. Mas um dia entendi como o livro se estruturaria e aí foi mais fácil de terminar. Depois disso teve o tempo ainda de achar uma editora, as coisas não são nada simples, ainda mais para narrativas curtas. Mas estou bem feliz, acho que no fim o livro saiu exatamente quando devia sair.

Existe alguma relação entre seu livro anterior, Noturno e Cinza (que era de poesia), e Anunciação?
Vanessa – Quando eu escolhi os poemas para o Noturno, Anunciação já estava pronto. Talvez tenha uma insistência em falar do corpo, essa ideia é muito importante para mim, um corpo no mundo, um corpo que escreve, um corpo sozinho. Mas acho que é uma relação indireta. Noturno e Cinza escrevi como uma forma de entender São Paulo, fiz logo que me mudei para cá e precisava dar conta de tudo isso que é essa cidade.

Você já escreveu ensaios, poemas e lança um romance agora. Como você decide que algo é um poema ou um ensaio ou prosa?
Vanessa – Acho que a ideia chega já sabendo o que ela é. Os poemas, por exemplo, a maioria começou com um verso, com um ritmo. Eu sabia, pela música da frase, que não seria o começo de um conto, por exemplo. Agora ensaio é o que mais gosto de escrever. Desde que aprendi que a gente não precisa ter certeza antes daquilo que vai falar, nem se interessar apenas por uma coisa na vida, que um ensaio é a construção de um pensamento, enfim, desde que percebi que a gente pode pensar escrevendo, ao mesmo tempo, o ensaio tem sido o tipo de texto que mais tem me atraído, é o que mais tenho lido. E como demanda uma preparação, quer dizer, escolher tema, ler os livros, é uma escrita muito consciente e mais racional. Nunca aconteceu até hoje de um ensaio se transformar em outra coisa, ou o contrário. Mas não que não goste de escrever prosa. É que a ficção às vezes mexe com umas coisas que a gente nem devia mexer…

Você se influencia criativamente por esses acontecimentos, como a chegada massiva de imigrantes na Europa ou o rumo que a lei brasileira tem tomada de dificultar ainda mais tudo para as mulheres?
Vanessa – Eu diria que sim. Não de uma forma direta, quer dizer, não como tema ou assunto. Mas como reação. Tudo que me afeta sei que vai mexer com minha memória. E escrita é memória. Mas para além da experiência mais íntima, acho que as coisas como andam no mundo hoje, essa violência toda e o subsequente esvaziamento por todo o excesso de discursos e imagens e opiniões me faz repensar a própria escrita e a importância, ou não, da arte no meio disso tudo. Ainda não sei falar muito sobre isso, quer dizer, é uma coisa que tem me afetado agora, nesta semana, em que de uma hora para outra uma fotografia de uma fileira de crianças mortas aparece na minha tela de computador com a mesma superficialidade que uma piada. Mas o fato é que tenho sentido uma necessidade tão grande de silêncio. Lançar um livro tem parecido um pouco inadequado.

Você já tem algo em mente para o próximo livro?

Vanessa – Bom, desdizendo o que acabei de dizer, sobre o silêncio… Tenho várias ideias em diferentes estágios, e ainda não sei como vou me organizar diante delas. Mas acho que ainda é bem cedo para falar delas. Ainda estou nessa fase estranha de alívio e luto em ver essa novela publicada. Mas posso dizer que um dos projetos envolve o Pedro Franz, inclusive. Mas disso falaremos no sábado.

Esse papo continua sábado, na Itiban. Venham!

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2 respostas para Conversamos com Vanessa C. Rodrigues

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