Hoje tem: Denis Mello + Felipe 5 Horas e Liber Paz (conversamos com ele também)

Eis que o evento de hoje aumentou! Além de Denis Mello (Beladona) e Felipe 5 Horas (Guia culinário do falido), Liber Paz se junta à mesa com seu recé-m-chegado da gráfica Dias interessantes. Conversamos com ele também:

LIBER PAZ

Liber

Qual é a de Dias Interessantes? Por que você fez a HQ?
Liber – Dias interessantes é a história de um rompimento. Tem outras coisas ali também, como amizade, boas intenções e escolhas difíceis. A gente tem esse casal de namorados e a relação deles está no fim. Basicamente, é isso. Logo depois que eu terminei As coisas que Cecília fez, pensei em fazer uma tira pra internet chamada A gaorta disléxica, que ia mostrar uma moça que tinha problemas com namoros e com escrever frases coerentes. Ela teria uma melhor amiga e basicamente ia ser uma série de gags que aos poucos ia se mostrar uma única história, com uma virada dramática brutal calcada em uma gravidez indesejada. A ideia não foi pra frente porque eu simplesmente não consigo fazer tiras. Uma ou duas até consigo, mas mais que isso, eu me perco. E as minhas piadas são horríveis. Enfim, deixei de lado a gaorta disléxica e fui tentar fazer uma adaptação de um conto do Ray Bradbury, A sereia de nevoeiro. Nesse lance eu fiquei patinando uns seis meses. Também não rolou. E FOI ENTÃO QUE, lá pelo meio de 2014, eu terminei um namoro e fiquei muito mal. A fossa virou uma depressão e um dia pensei “pooou, eu podia aproveitar essa bad pra fazer alguma coisa, né?”. Daí juntou tudo. As meninas da Gaorta disléxica voltaram, o farol do Bradbury e uma tentativa de tentar lidar com aquela fase. E também uma vontade estranha de fazer um musical, tipo Moulin Rouge, do Baz Luhrmann, daí as várias referências a músicas. (Me falaram que faltaram músicas brasileiras, mas na trilha sonora tem Valesca Popozuda e Nenhum de Nós). Christian, um dos protagonistas de Dias interessantes, tem seu nome por causa do Christian de Moulin Rouge. Sabine tem seu nome por causa do livro Griffin & Sabine: uma correspondência extraordinária, de Nick Bantock, um livro que considero sensacional. Por um tempo pensei em chamar a HQ de Christian & Sabine, só pra fazer um trocadilho infame. Bem mais tarde, fui perceber que a amante de Christian em Moulin Rouge chamava-se Satine e no fim meu trocadilho acabou ficando bilateral. Nisso tudo ainda tem várias referências a Doctor Who, que me fez companhia nos meus piores momentos de fossa. Não sei bem explicar por que fiz essa HQ, mas foi um processo longo, divertido, enriquecedor, sufocante, pesado e um bocado doloroso. Tou feliz que acabou.

Entre As coisas que Cecília fez e Dias Interessantes, vocês fez algumas histórias curtas. Qual é a diferença entre esses materiais e Dias interessantes?
Liber – Histórias curtas são ótimas pra treinar, pra estudar. Histórias curtas ficam prontas mais rápido. São mais estimulantes de fazer e não ficam nada a dever pras histórias longas em termos de qualidade. Dá pra achar muita história de 8 páginas que tem tanto valor quanto muito calhamaço de trocentas páginas. Mas eu tenho um apreço por histórias que ficam em torno das 70, 80 páginas. Acho que é por causa de uma nostalgia e um carinho que sinto por aquela série Graphic Novel que a editora Abril publicou no final dos anos 1980 e começo dos 1990. Esse formato, essa quantidade de páginas me agrada muito. A desvantagem que vejo de histórias mais longas é justamente o desgaste na produção. Como disse o Shiko, “fazer esse tipo de história parece um namoro que durou mais do que devia”. Enfim, cansa, desgasta, eu reclamo um monte e assim que termino começo a pensar na próxima.

Novamente, você cria uma protagonista feminina. Alguma razão específica pra usar mulheres protagonistas ou era apenas o que a história pedia?
Liber – Olha, nesse caso, como eu tinha citado na questão anterior, Dias interessantes é um desenvolvimento da ideia pras tirinhas da Gaorta disléxica, que era uma história protagonizada por mulheres. As duas protagonistas de Gaorta Disléxica, Rafa e Simone, tornaram-se Cati e Simone, mas tiveram mudanças significativas em seus papéis. Gosto de pensar que Christian é protagonista junto com Sabine. Ainda que ela tenha mais páginas e passe por uma situação realmente difícil e perigosa, Christian tem uma relevância grande pra história. Mas confesso que tenho preferência pelas personagens femininas. De novo, lá nos anos 1990, Estranhos no Paraíso e Sandman eram duas das minhas séries favoritas de quadrinhos e o modo como representavam as figuras femininas era um dos principais diferenciais pras outras HQs. Parece-me que as histórias protagonizadas por homens sempre eram a mesma coisa: um cara e o mundo ao redor dele, existindo em função dele, povoado por homens que vão servi-lo ou enfrentá-lo. Jornada do herói, sagas, épicos e tals. Mas as histórias protagonizadas por mulheres mostravam pessoas que estavam no mundo e conversavam com outras pessoas e simplesmente tentavam viver suas vidas da melhor maneira possível. Eu gostava mais do lance do cotidiano do que do fantástico (até porque muitas vezes o tal “fantástico” era um punhado de clichês requentados pela bilionésima vez e que pareciam ter sido jogados na página por gente que só queria pagar o aluguel e enquanto não achava coisa melhor estava ali fazendo quadrinhos). Enfim, acho que é por isso que prefiro protagonistas mulheres. Pra minha próxima HQ eu planejo um protagonista homem, mas as mulheres estarão lá. É inevitável.

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Página de Dias Interessantes

De que forma sua carreia de professor de design, de crítico de quadrinhos e de quadrinista se realimentam?
Liber – O lance de professor é fundamental porque adoro falar com pessoas e o trabalho em cima da prancheta é bem solitário. Então, lecionar me recompensa muito. Gosto de dar aulas porque gosto de ouvir, gosto de conversar e tentar entender o que essas pessoas pensam, de onde vem, o que querem. Isso é muito importante pra fazer os quadrinhos, escrever os diálogos, pensar os personagens. Pra mim, histórias em quadrinhos e design são indissociáveis. Layouts, grids, tipografia, produção gráfica, tudo isso entra na hora de pensar uma HQ. Mais ainda que isso, você planeja a HQ como (deus me perdoe por escrever isso) “uma experiência para o usuário” (argggh). Ok, é o jargão de designer gourmet, mas quando fazemos uma HQ e pensamos na linguagem, nos aspectos formais e técnicos e consideramos que isso deverá provocar pensamentos e reações em nosso leitor e ainda se relacionar com um contexto sócio-cultural maior… enfim, tudo isso tem muito a ver com design. Em Dias interessantes, a Sabine é uma estudante de design que curte muito tipografia. No quarto dela você pode ver na parede um posterzinho com a capa do livro Elementos do Estilo Tipográfico, de Robert Bringhurst, tipógrafo e poeta. Ele começa seu livro assim: “Assim como a oratória, a música, a dança, a caligrafia – como tudo que empresta sua graça à linguagem – , a tipografia é uma arte que pode ser deliberadamente mal utilizada. É um ofício por meio do qual os significados de um texto (ou sua ausência de significado) podem ser clarificados, honrados e compartilhados, ou conscientemente disfarçados”. E daí eu estudo design e leio esse tipo de coisa e penso, “oras, essa é uma maneira de pensar histórias em quadrinhos também”. E acho que é mesmo. :-)

Então, é isso: hoje a partir das 17h, é só chegar na Itiban e conversar com três caras batutas e pegar seus autógrafos.

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