A boca quente, por Lielson Zeni

Ontem teve texto sobre Hermínia e hoje vai ter texto sobre A boca quente. Assim, falamos dos dois lançamentos de hoje a noite na Itiban. Também conversamos com Shiko e o papo pode ser lido AQUI.

Segue a resenha:

A boca quente – parte 1

Shiko retoma um ciclo. O quadrinista que já foi fanzineiro de velha guarda, publicou quadrinhos com edital (BlueNote), de encomenda (Piteco-Ingá e O quinze), por editora (Lavagem) e independente (Marginal e Azul indiferente do céu), volta à publicação de fanzine. Claro, com a cara que os fanzines têm hoje: qualidade de impressão, bem cuidado, com proposta. Um caso mais pensado e menos espontâneo. E no caso de A boca quente – parte 1, isso é ótimo.

Vejam, o mesmo artista que fez o excelente Lavagem neste ano, sai com esta pequena narrativa de ação. Pequena porque 24 páginas, não por faltar mérito. E ainda diz por aí que essa vai ser a última HQ dele. Vai ser a última, por isso vai ter TALVEZ cinco partes (talvez mais). Qual é o recado de Shiko nesse ato?

Primeiro, de liberdade artística. “Eu desenho os quadrinhos que eu quero”, por isso, mesmo aqueles que foram encomendados, devem ser lidos com a busca pela intenção autoral. Outra mensagem é “voltei ao meu início, para ver se ainda gosto tanto assim de fazer HQ”. E outra informação óbvia é que Shiko quer encontrar esse sinal de amor correspondido. Ao puxar páginas desenhadas que estavam na sua gaveta a quase uma década e continuara dar-lhes história, Shiko quer saber se ainda vale todo o esforço de quadrinizar.

Quadros de A boca quente

A trama da primeira parte é uma grande situação de personagens e, principalmente, de ambiente. Vale deixar a leitura aos leitores.

Porém, é válido apontar algumas interessantezas do gibi. Um carro com placa de El caminho, cidade fictícia de Diego Sanchez em Perpetuum Mobile e Hermínia. Seriam essas histórias conectadas? Interzona, onde se passa o rolo todo, puxa para dois lados: primeiro, de volta a Sanchez, que em Hermínia fala de um jogo de videogame chamado “Interzona 64”; e a referência mais importante que seria William Burroughs.

Burroughs situa Almoço Nu (e outros de seus textos) num espaço fictício, a Interzona, criado por ele a partir de sua experiência no Marrocos e no Tanger, submundos de Nova York, Paris e Londres. É a soma do urbano com o exótico, uma colagem de situações geográficas, bem ao estilo de sua escrita.

Shiko trata bem disso, misturando formas arquitetônicas (que a nós, brasileiros, só parece o centro de qualquer capital daqui), com pichações e textos em diversos idiomas, com uma pitada de futuro decadentista. Toda a Interzona de A Boca quente é submundo. Mais um exemplo da colagem dos mundos ficcionais nesse universo é o bar Cão sedento, retirado de Pulp, de Charles Bukowski. O clima das obras desses dois autores empesteia todo o ar de A boca quente.

Sem falar que a protagonista lembra demais certa personagem do cinema.

Ressalte-se ainda os diálogos, que parecem decalcados de pornochanchadas ou do cinema erótico brasileiro de 1970-80, como o texto da quarta capa: “Mas hoje eu pego essa danada. Vou botar no seu rabo como ninguém nunca botou.”.

Essa retomada de Shiko ao seu velho modo de produzir, não é apenas uma visita nostálgica ao passado. É um retorno cercado da experiência do artista que foi se formando nesse período todo. Mas sem nunca esquecer de onde ele saiu.

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3 respostas para A boca quente, por Lielson Zeni

  1. Mayckel Vasconcellos disse:

    Boa tarde! Rapaz, não acho esta HQ em lugar nenhum para comprar. Por gentileza, saberia me dizer onde seria possível eu adquirir? Grato da atenção.

  2. Mayckel Vasconcellos disse:

    Boa tarde!
    Por gentileza, saberia me informar onde adquirir esta HQ, não acho em lugar nenhum. Muito grato da atenção.

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