Conversamos com Diego Sanchez

Diego Sanchez

Trocamos uma ideia com um de nossos convidados de terça-feira, 6 de outubro, Diego Sanchez. Segue o papo:

Hermínia saiu pela Mino e Pigmaleão pela Ambrosia. Teve alguma diferença de processo editorial entre os dois trabalhos? E em relação a seus lançamentos independentes, como Perpetuum mobile?

Diego Sanchez – Sim, sim, foram experiências bem diferentes. A Perpetuum Mobile, pelo fato de ter sido escrita sem nenhum controle editorial, acaba sendo um livro bem mais solto, sem foco, mais pra uma experimentação – o que por um lado meio que contribui prum tipo de fluxo mais orgânico que eu planejava para a história mesmo. Eu comecei a desenhar sem ter a menor ideia de como ia terminar e o que seria relevante, e meio que tudo acabou me parecendo relevante. Então, foi basicamente um processo de aglutinação de ideias e eventos em torno da figura do protagonista.

Acho que dentro de uma editora seria difícil manter a naturalidade que ela acabou tendo, mas talvez tivesse virado um livro mais bem direcionado, tipo, mais certeiro. O bom de fazer algo independente é poder errar achando que cê tá acertando, poder desenvolver processos não muito funcionais de produção, poder aloprar a porra toda e conceber o teu livro da maneira que quiser. Por outro lado tem TANTA coisa envolvida na produção do livro… é completamente exaustivo, isso sem falar depois na divulgação, distribuição…

É legal tipo cruzar o país de bicicleta, tipo, uma experiência única e valiosa mas não sei se é algo que eu tenho pique para continuar fazendo. No caso, eu não sei andar de bicicleta então nem sei se é uma metáfora válida.

A Pigmaleão foi um pouco diferente, eu tive um monte de conversas com o Salvador [Camino], mas o livro já estava quase pronto quando mostrei para ele. A gente pensou muito junto. Coisas tipo as pausas de página, o formato que seria bem pequeno, e ele me incentivou a fazer maior o material… a Ambrosia não é exatamente uma editora, é mais um selo do site. A proposta da Ambrosia é um tipo de parceria, os autores têm uma porção maior do lucro do que nas editoras comuns, mas tem uma divisão também do trabalho. Digamos que a Ambrosia está no meio do caminho entre uma editora convencional e a publicação independente, e foca, basicamente, em catalisar um tipo de produção mais autoral. E isso foi uma ideia que mee agradou muito, tanto que comecei a integrar o selo.

A Hermínia foi completamente diferente das outras. Quando eu apresentei o projeto pra Mino, eu tinha uma ideia geral e dez páginas feitas. Tudo foi pensado junto com a Mino, desde formato, papel, capa até escolhas narrativas e de desenvolvimento dos personagens.
De maneira geral, eu acho que fui extremamente sortudo de encontrar a Mino, por todo o cuidado que eles têm não só com a edição, mas também com os autores, por exemplo, em lançamentos e eventos fora do estado, em que eles sempre se encarregam de hospedagem, transporte, todo o tipo de coisa. Foi um livro bem mais trabalhoso e trabalhado que os outros, mas depois de uns dois meses finais sem quase sair de casa, o resultado final me agradou de uma maneira que nem acreditei. Eles tiveram essa coisa de forçar o melhor mesmo, de cobrar e tal, o que às vezes é meio cansativo, mas que no final vale muito a pena.

Além desses 3 álbuns (Perpetuum mobile, Pigmaleão e Hermínia), você produziu muitas histórias curtas. Você separa de alguma maneira o que rende mais e o que precisa ser uma única cena ou uma situação mais concisa?

Diego Sanchez – Acho que, em geral, a própria história acaba pedindo. Mas, às vezes, eu corto ideias que poderiam render mais por algum tipo de ansiedade. Os trabalhos que eu fiz para o Nébula, por exemplo, eu fico meio triste de ter matado eles meio que sem desenvolver tanto quanto eu gostaria… Mas aí tem toda a questão de prazo envolvida, por exemplo. Outras vezes, eu estico desnecessariamente histórias que se resolveriam em quatro quadros… sei lá, eu acho que ainda tô achando uma sobriedade para esse tipo de julgamento, mas, por enquanto, eu fico muito em função do que o quadrinho parece pedir para se desenvolver.

Capa de Hermínia

Você está desenvolvendo um universo com seus álbuns. Pode falar um pouco como você pensa ele e pra onde você acha que isso caminha?

Diego Sanchez – Pô, sim! Eu comecei a pensar nesse universo como uma necessidade para situar a Perpetuum Mobile. Conforme eu ia escrevendo, esse mundo foi surgindo com mais importância na história, até que eu comecei a sentir a necessidade de nomear as coisas, de pegar uma massinha de modelar mental e resolver um pouco mais esse universo na minha cabeça. Eu fui reparando numa qualidade meio anacrônica dessas cidades que eu fui construindo, que cabia bastante dentro de uns conceitos que me interessavam de exploração do tempo, de um tempo meio indefinido. Eu queria criar essa noção de lugares meio insustentáveis , meio irreais, que ficam a um segundo de você acordar e perceber que eles não estão lá. Mas, apesar dessas características, têm uma retração extremamente mundana…
Por enquanto, eu tenho mais um livro dentro desse universo. E é sobre algumas pessoas ligadas por um rio chamado Oroboro que desemboca em si mesmo num processo cíclico… Mas eu não sei o quanto ainda me interessa explorar ele além desse livro. Talvez fosse legal fazer um série como Discworld, do Terry Pratchett (que foi uma grande influência), mas acho que tudo depende da capacidade de comportar as novas histórias que vierem. Não sei! hahah, não tenho a menor ideia!

Suas HQs me parecem ter muito mais perguntas que soluções e, no final, eu sempre fico com a impressão de que alguma coisa me deixou no meio do caminho, sem uma resolução fácil. Você concorda com essa ideia?

Diego Sanchez – Eu acho que sim, se eu entendi a pergunta direito, sim. Sei lá, eu acho que a ideia talvez seja explorar conclusões que não exatamente conclusivas. hahah! Acho que existe algum tipo de resolução nas histórias, mas é um tipo de resolução meio estranha e não satisfatória. Tipo quando você começa a contar uma história e, quando você termina, alguém te pergunta “e aí?” e você fica meio,”bem, sei lá, é isso eu acho”.

Ou então pensa nas manifestações de 2013, aquela ideia de que algo definitivamente está acontecendo e ok, daí de repente seguram o aumento do ônibus por algum tempo, mas as pessoas já não têm mais certeza se era só essa a questão e uns meses depois o aumento acontece de qualquer modo. Depois de um monte de auê fica aquele gosto amargo de “talvez alguma coisa tenha mudado, mas talvez não”… Eu gosto dessa ideia de uma resolução não exatamente palpável.

Vários de seus personagens masculinos são evasivos e fechados, alguns até parecem hedonistas e niilistas. Concorda com essa visão? De onde surgiu esse tipo de personagem nas suas HQs?

Diego Sanchez – Concordo, sim. Acho que é uma pergunta meio difícil e que a resposta na ponta da língua seria dizer que eles são uma especie de alter ego. Mas, sei lá, eu acho que de maneria geral eu sou uma pessoa bem menos fechada e pau no cu que os personagens que escrevo. Quando eu paro para pensar meus referenciais mais antigos de masculinidade, lembro de caras fechados e emocionalmente evasivos, tipo meu pai, meu avô, personagens de quem fui fã, tipo Wolverine e o Sonho, de Sandman.

Mas voltando à primeira proposição, acho que tem a ver sim com alguma parcela de como eu me enxergo. Eu lidei uma parte considerável da minha adolescência e vida adulta com problemas de depressão, e a recorrência disso afetou bastante a minha personalidade e maneira de ver o mundo. Provavelmente, por isso me interessa tratar de personagens mesquinhos, com dificuldades de estabelecer relações, um pouco apáticos, um pouco sem rumo e desconfiados das próprias motivações. Eu sempre fui apaixonado por escritores tipo o Mutarelli, o Charlie Kaufman, o bukowski… Todo esse lado do egoísmo humano, da solidão, de uma falta de empatia meio que quase afogando, mas não totalmente algumas das coisas singelas e bonitas da vida.
Eu acho que de algum modo talvez essa personalidade meio cinzenta acabe sendo um recurso para dar um foco nesses momentos singelos, que provavelmente ficariam apagados num personagem mais vibrante.
Apesar de nem toda as tentativas serem bem-sucedidas, eu me esforço para que os personagens sejam falhos e reprováveis, mas ainda causar algum tipo de empatia. Eu acho que é incrível quando o personagem consegue decepcionar quem está acompanhando ele.

Qual é seu próximo projeto?

Diego Sanchez – Tô planejando escrever alguns zines para dar uma respirada. Para o ano que vem, quero lançar um quadrinho que ficou meio parado, Oroboro.

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2 respostas para Conversamos com Diego Sanchez

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