Conversamos com Robson Vilalba

Robson Villalba vai lançar seu livro em quadrinhos sobre o golpe de 1964

Robson Villalba vai lançar seu livro em quadrinhos sobre o golpe de 1964 na Itiban no dia 18/07 (foto de Daniel Castellano)

Trocamos umas ideias com nosso convidado de sábado, Robson Vilalba. Só seguir a leitura e aparecer aqui na Itiban pro lançamento de Notas de um tempo silenciado.

:)

Notas de um tempo silenciado é jornalismo em quadrinhos. Quais são as vantagens/ desvantagens desse formato em comparação com um livro-reportagem, por exemplo?

Robson Vilalba – É importante partir do ponto que, enquanto publico este livro, estou também pesquisando o jornalismo literário e o os quadrinhos de não ficção. E, até o momento, acho que há apenas uma vantagem: os quadrinhos jornalísticos alcançam um público muito amplo. No meu caso, que é o que melhor conheço, tenho recebido um retorno muito positivo de professores de jornalismo, acadêmicos, e, da mesma forma, de pessoas que não têm o hábito de discutir esses temas ou que tenham contato com uma literatura de não ficção, como livros jornalísticos, de história ou qualquer outra forma de pensamento social.

Um exemplo a ser seguido do jornalismo literário (ou as grandes reportagens, em qualquer formato) é o volume de informação, dados coletados em campo, estatísticas, a experiência do jornalista, que não são postos em detrimento do recurso estilístico e estético da linguagem. Tenho visto alguns quadrinhos jornalísticos que tem aberto mão dessa densidade de informações em nome apenas dos quadrinhos. Os desenhos, na minha opinião, não podem servir como muleta, se a proposta é jornalística, biográfica ou analítica, os quadrinhos têm que trazer o máximo de informação para o leitor e não só uma nova forma de contar o que elas já sabem.

Como foi equilibrar na HQ a linguagem dos quadrinhos e a necessidade da clareza das informações históricas?

Robson Vilalba – Foi um processo muito difícil e ao mesmo tempo muito prazeroso. No caso dos quadrinhos publicados no jornal Gazeta do Povo, eu tinha o limite de quatro páginas, nesse caso [Notas de um tempo silenciado] o exercício de síntese era muito grande. Eu tinha que achar o cerne da questão sem perder informações que fossem importantes para a narrativa. Sinto que fui melhorando a cada história, selecionando melhores os fatos e os dados a serem narrados. Sinto que há um salto de qualidade narrativa muito significativo em relação às cinco histórias que foram acrescentadas no livro.

Sua formação é em Ciências Sociais. Notas de um tempo silenciado é, de alguma forma, uma sequência de seus trabalhos acadêmicos?

Robson Vilalba – Não. A minha pesquisa era de uma área diferente. No entanto, a minha experiência no mestrado em sociologia foi fundamental. O impulso investigativo, o esforço em perseguir informações, mesmo que horas de leitura e de entrevista sirvam apenas para encontrar um ponto. E, a partir dele, iniciar novas leituras e entrevistas para, enfim, alcançar o objetivo. Esse é o típico esforço de pesquisador científico. Isso sem falar na questão do critério analítico, algo semelhante ao que, dentro do jornalismo, é chamado de “chegar às fontes”. Para dar um exemplo, na história do Osvaldão existem várias versões para sua morte e nenhuma se apresentava como definitiva, por isso, preferi apresentar ao leitor as diferentes versões, para que ele possa tirar suas conclusões ou, até mesmo, dar um passo adiante e procurar novas provas e fontes. Esse também é um hábito das ciências sociais: você não esgota a pesquisa, avança ao máximo e com isso abre possibilidades para outras pesquisas.

Como você lê a situação de que um movimento inicialmente orientado à esquerda (politicamente) em junho de 2013 tenha originado uma onda conservadora tão forte? Ou acha que o reacionarismo tenha outra fonte?

Robson Vilalba – Integrantes do Movimento Passe Livre (grupo a partidário de esquerda) publicaram um livro chamado 20 centavos, em que eles localizam o surgimento dessa onda conservadora, em São Paulo, durante as manifestações de junho de 2013. Eu concordo com esse ponto de vista e se ampliarmos essa análise para os protestos que ocorreram em outras cidades, como Curitiba, fica evidente que o protestos se transformam em protesto de massa (plural e amorfa). Basta lembrarmos dos cartazes que ironizavam o próprio evento.

Ainda assim, o peso cultural e histórico de junho é muito grande. Tanto que estamos falando sobre isso.

Acredito que, para a esquerda, que tradicionalmente foi às ruas em movimentos sindicais ou de direitos civis, o fato de ser afugentada (de maneira muitas vezes violenta) tenha incitado, no mínimo, uma autoanálise com relação a sua capacidade de representar interesses populares (de classe ou das minorias, conforme o discurso). O que quero argumentar é que a esquerda passou a se repensar.

Acho que as pessoas que se posicionam à direita, ideologicamente, também saíram ganhando com os protestos. Junho serviu para que eles acreditassem que é possível ir às ruas e é possível ser ouvido, e isso é uma grande conquista democrática. No entanto, como a direita não tem muita experiência política, faz isso aos tropeços, engatinhando. Além disso, a falta de uma liderança liberal (digo liberalismo democrático e de valorização da liberdade de indivíduo) cria um ruído coronelista e autoritário no seus discursos.

Ainda assim, eu sou um otimista incorrigível e acho que a direita está aprendendo a fazer política. Ao baterem suas panelas e desfilarem pela avenida Paulista domingo à tarde se colaram ao público. Agora, temos dados sobre eles (a USP fez um excelente levantamento da faixa de renda, crenças, posicionamentos). E eles também perceberam algo que a esquerda já ouve há muito tempo: as coisas não mudam da noite para o dia. Não dá para ir às ruas uma vez por mês e achar que tudo vai mudar. O exercício da política é um exercício permanente. Agora, também devem se permitir a autocrítica. E uma pergunta que precisam se fazer imediatamente é: se suas reivindicações têm ajudado a fortalecer o Estado de Direito ou a um conservadorismo de raízes coronelistas. Se pensarmos nas figuras políticas (e seus perfis ideológicos) que se fortaleceram com os protestos desse ano, a resposta fica óbvia.

Praticamente 30 anos depois da abertura política brasileira, qual é a importância de se continuar falando da Ditadura Militar?

Robson Vilalba – Primeiro que, comparados com outra democracias, como a americana, 30 anos é muito pouco.

Além disso, acho que a história não tem prazo de validade. Acho que devemos sempre revisitar a nossa história traçando paralelos com o presente. Pois o olhar sobre a história sempre muda. Novos olhares nos permitem perceber novas nuâncias. Além disso, muita coisa aconteceu nesses 30 anos e é inegável de que só agora começamos a ter mais informações sobre o que aconteceu naquele período.

Não imagino, por exemplo, um livro (nem mesmo em quadrinhos) publicado nos anos 1990 em que se contasse a história de um sargento militar perseguido pela ditadura e um traidor da guerrilha. Histórias que olhassem para guerrilha, não pelo viés da ideologia socialista, mas pelo viés de gênero ou racial. É isso que quero dizer com “novas nuâncias”.

Trinta anos depois, posso falar sobre esse assunto e me sentir seguro “sin perder la ternura jamás”. Ainda assim, acho sua pergunta pertinente e acho que o leitor tem que fazer a mesma pergunta. Essa é uma das coisas que tento responder nos quadrinhos.

Você pensa em voltar ao formato quadrinístico para seus próximos trabalhos?

Robson Vilalba – Já estou trabalhando em uma nova pesquisa e espero concluir um novo livro de quadrinhos jornalístico no próximo ano.

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O papo continua no sábado, na Itiban! Apareeeeçam!

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