Entrevistamos Pedro Cobiaco e Shiko

Pra aquecer o lançamento de amanhã (apareeeeeça), falamos por email com Shiko e com Pedro Cobiaco. Mas o papo vai ser massa mesmo é no sábado, 16h.

SHIKO

Quando surgiu a ideia do roteiro de Lavagem? A intenção era mesmo que ele fosse um curta-metragem desde o início?

Shiko – Em 2010 Bruno Sal, que veio a fazer a fotografia do filme, disse que precisávamos criar um roteiro para usar uma locação que ele havia encontrado. Um casebre com uma pocilga na frente, as margens de um mangue. Imediatamente me ocorreu um filme de terror. Já que a Maré alta isolava a pocilga do continente. Resolvemos então usar esse roteiro em um projeto de curta-metragem da cooperativa de cinema Filmes a granel.

Quando você percebeu que o filme poderia virar HQ?

Shiko – Enquanto eu e o bruno montávamos o filme, percebi que o bruto dos dias de filmagens não seria suficiente para contar essa história do modo que eu queria. Acho que aí surgiu a ideia do quadrinho.

Comente um pouco da diferença da criação de um filme e de um quadrinho, quanto a pessoas envolvidas, tempo de criação, retorno do público.

Shiko – O trabalho coletivo certamente é a primeira diferença entre produzir cinema e produzir quadrinhos e acredito que a possibilidade de trabalhar com os amigos é a principal razão da minha vontade de fazer cinema. Por que me tira do trabalho solitário de autor de quadrinhos. Além do mais essa troca com os companheiros da cooperativa alimenta e renova o meu modo de fazer HQs.

A sua arte em preto e branco mostra bastante leitura de quadrinhos de terror. Isso é uma impressão minha? Ou de que forma esses quadrinhos de horror o formaram como quadrinista?

Shiko – Eu li bastante quadrinho de terror na adolescência. O início dos anos 90 foi um ótimo período para o gênero. E é inevitável não perceber em lavagem a influência desse período como Mozart Couto por exemplo.

Você já fez quadrinhos com editais governamentais (Blue Note), de modo independente (Talvez seja mentira e O azul indiferente do céu), por encomenda (Piteco-Ingá e O Quinze), por editora (Lavagem). Seu processo criativo muda em cada um desses casos?

Shiko – Não percebo diferença entre o processo criativo dos meus trabalhos independentes e do Lavagem lançado pela Mino. Mas há uma diferença clara entre o material independente e aquele feito por encomenda. Basicamente no caso de encomenda existe a necessidade de suprir interesses e expectativas do contratante. Não diria que essa relação diminui as possibilidades criativas, mas certamente as direciona.

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PEDRO COBIACO

Pedro cobiaco

O Pedro de hoje poderia fazer Harmatã? Ou ela está ligada a quem você era na época?

Pedro Cobiaco – Acho que o Pedro de hoje (sou eu) poderia, mas não teria nenhum interesse. Não que eu não goste da hq, longe disso, mas é que eu realmente tou num ponto bem diferente da vida, com outras vontades, inspirações e influências entrando no meu trabalho. É sim um quadrinho bem conectado com a época que eu fiz ele, foi pegar ou largar: se não tivesse sido ali, naquela hora, não seria nunca. Mas, por um outro lado, se eu não tivesse terminado Harmatã, não teria aberto algumas das portas que eu abri (e fechado outras), o que possibilitou que hoje eu estivesse fazendo as histórias que eu estou. Cada trabalho é um muro saltado.

De onde surgiu a vontade de fazer uma HQ sobre um casal que conversa ao telefone? Num primeiro momento, parece pouco visual. Era esse o desafio?

Pedro Cobiaco – Isso. Harmatã na verdade começou como um desafio mesmo, uma vontade de experimentar: eu queria fazer uma HQ que fosse simplesmente um diálogo, e queria contar ela de uma maneira que os personagens em si quase não aparecessem. Essa ideia vinha do fato d’eu estar estudando como a poesia agia na música nessa época, essa coisa que uma canção pode ter, de pegar um poema e transformar ele, dar novas facetas, expandir o potencial da coisa com som e atmosfera. Queria ver qual seria um possível equivalente disso com quadrinhos. Só que eu não me considero um bom poeta, então resolvi usar um diálogo de base pra essa criação de atmosfera e possibilidades, achei que era uma forma que dialogava melhor (rá) com quadrinhos, e algo com o qual eu me sentia mais confortável. Foi também uma solução criativa: eu não tinha capacidade artistica pra fazer com que só imagens dos personagens dialogando por telefone ja fossem interessantes por elas mesmas. Ai a gente dá um jeito malandro de lidar com as limitações, hahaha.

Como você pensa suas HQs? Como uma história a ser contada ou como o desafio de apresentar uma ideia usando texto e imagem?

Pedro Cobiaco – Os dois. É a coisa de achar uma história que valha a pena todo o trabalho que eu vou ter com meu processo de criação, desenvolvimento, desde o rascunho mais básico até as pompas finais. Tanto achar a história quanto desenvolver são coisas difíceis, mas também muito prazerosas, contanto que eu não sinta que eu estou me repetindo, jogando na zona de conforto, e muitas vezes eu estou e ai ou não termino o trabalho ou a coisa não sai tão boa, porque morto o desafio, morre o entusiasmo.

Harmatã tem uma carta dentro de um envelope. Isso de pensar formatos diferentes de publicar te interessa?

Pedro Cobiaco – Bastante. Eu sempre tenho muitas ideias em relação a esse tipo de coisa, de brincar com formatos, formas de publicar, mas percebo que de todas essas ideias as únicas que vivem para além do entusiasmo inicial são as que de alguma maneira eu sinto que se conectam com o conceito geral da história, que acham um laço com a HQ em si, ajudam a contar algo de novo, expandir o que já está sendo contado, criar alguma coisa que tenha sentido.

É diferente pensar em publicar numa revista, num jornal ou na internet?

Pedro Cobiaco – É sim, porque tudo faz parte da obra, logo pensar tudo é importante. Eu acho que se você vai publicar um livro, cada página daquele livro tem que merecer estar ali. E eu não estou falando da história só, tou falando de tudo: prefácios, posfácios, páginas de aberturas, aberturas de capítulo, tudo isso tem que ter sentido, não acho que nada deva estar ali só por estar, só pela convenção. Cada elemento de um livro influi na experiência subjetiva do leitor com ele, na atmosfera que se cria, então qualquer pulo pra fora que você der, é um pulo que o leitor dá pra fora do universo da HQ. Pra internet é igual, e agora que eu estou pra trabalhar uma HQ digital, eu tou tentando desvendar como os aspectos que estão ao redor de uma webcomic podem ser influênciais nela: o site, os elementos, tudo, pra te dar uma sensação de estar dentro daquele universo da hq, que nem como você se sente parte de um livro enquanto segura ele. Claro, às vezes o mais básico também é tudo que algo precisa: as HQs do Sam Alden, por exemplo: ele só posta todas no Tumblr dele (modelo simples, fundo branco) de maneira comum, e do começo ao fim de cada história eu não consigo me desgrudar do mundo que elas estão criando. Vai saber, cada lugar um lugar, cada lugar uma lei, hahaha.

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