Lavagem, de Shiko

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Ontem teve a resenha de Harmatã, do Pedro, um de nossos convidados de sábado. Agora vai a resenha de Lavagem, do Shiko, o outro autor que estará aqui na Itiban.

Lavagem, por Lielson Zeni

Ó, eu vou escrever sobre um gibi chamado Lavagem, mas antes vou falar de outras coisas que parecem não ter nada a ver (mas eu acho que têm).

Toda a história só existe na cabeça do leitor, qualquer uma. Antes de o leitor acioná-la, ela é apenas um potencial narrativo incompleto, cheio de lacunas. Eu, você e todos nós, chegamos ao livro (ou a HQ, já que é disso que se trata, ou melhor, tratará) e acionamos aquele organismo (eu recuso o termo “máquina”) e ele ganha vida, usando nossa mente de habitat. Tudo isso não sou quem diz, são uns alemães inteligentes da teoria da recepção, tipo o Jauss e o Iser (eles dizem mais e melhor, lê lá).

Leitura lida com memória e sabemos que ela (a memória) é uma grande canalha, pois recortamos o vivido e armazenamos de um modo muito particular na cabeça, organizamos como uma narrativa. Muita gente inteligente (não só aqueles alemães do parágrafo acima) já discutiiu sobre como a memória pode ser enganosa, como exageramos, diminuímos, alteramos (e, por que não, nos protegemos de) aquilo que a vida nos entregou.

Bem, então: quero dizer pra vocês que memória e a ficção são coisas similares (mas não são a mesma coisa) e elas têm o mesmo ambiente ou habitat (pra resgatar o termo acima, em nome da coesão textual) que a imaginação. Nada disso acontece no mundo real, só na sua (minha/nossa) cabeça. Mas se acontece na minha cabeça e eu tô no mundo, ela acontece no mundo, certo?

Não sei.

Guarda do livro com espaço pro autógrafo

Mas o que tudo isso tem a ver com Lavagem, a HQ do Shiko lançada há uma semana pela Editora Mino? Vou tentar organizar essa suruba conceitual.

Vou tentar não especificar cena alguma, para não estragar a surpresa daqueles que preferem uma leitura com o menor conhecimento da trama possível, mas garanto, o melhor de Lavagem não está em seu enredo, mas em como ela se desenvolve enquanto história em quadrinhos.

Toda a história se pauta por suposições dos personagens e por sua imaginação do que aconteceu ou acontecerá (como se houvessem uns parênteses na HQ, dando uma informação extra e comentando). Essa regra vale para os dois personagens que formam o casal protagonista (e o leitor nunca sabe se o mais importante está nos parênteses ou fora deles) (vale dizer que imaginação em Lavagem não deve ser entendida como aquele lindo devaneio de livro infantil, mas sim descontrole da mente, chegando a psicopatia).

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Essa história que “só acontece na cabeça do leitor” acontece em larga medida na cabeça dos personagens, até que alguns atos acontecem (sem spoiler, sem spoiler), e a história de Shiko se encaminha pra memória afetiva do leitor (minha, pelo menos) de ter lido mais um excelente material do autor.

Vale lembrar que Shiko é o autor de O Quinze de Rachel de Queiroz (2012), Piteco – Ingá (2013), Azul Indiferente do Céu (2013) e Talvez Seja Mentira (2014). Em todas elas, chama atenção seu desenho, sua escolha dos pontos de vista, o andamento que é imposto à narrativa, a brutalidade. Tudo isso está em Lavagem.

Em Lavagem, Shiko opta por uma arte preto e branco que dialoga com uma tradição de quadrinhos de terror, mas o modo de decupar a página e de usar o texto é o jeito particular do artista. Há diversos símbolos na HQ, que se relacionam com citações diretas da Bíblia e com a emulação de uma fala televisiva de um pastor.

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A religião aqui não é tratada com uma crítica rasa, de que ou se é materialista ou não se é nada. O metafísico e o alusivo se refestelam em Lavagem. Por exemplo, a água como um elemento de carga simbólica intensa na HQ. Somente dois personagens entram em contanto com o mar (o pastor, que anda por ele; e a mulher, que mergulha). A água é símbolo tradicional de purificação e recomeço (para citar exemplos bíblicos: o dilúvio, o mar vermelho aberto por Moisés, Jesus andando sobre as águas) (lembro que a palavra bíblica é outro elemento estruturador em Lavagem).

A própria palavra título “lavagem” ganha uma amplitude semântica ao fim da história (e para cada sentido, novas derivações).

De um lado, essa metafísica cristã pelo viés de Shiko; de outro, o casebre, o chiqueiro, a comida que parece lavagem, no mais concreto dos mundos. Mediando isso tudo, a cabeça dos personagens, que imaginam, pensam, sentem, constroem e destroem (assim como os leitores) a história de suas vidas.

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3 respostas para Lavagem, de Shiko

  1. Prof. Carlos disse:

    Melhor resenha dessa obra que li até agora. Digna.

  2. Pingback: A boca quente, por Lielson Zeni | Blog da Itiban

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