Harmatã, de Pedro Cobiaco

Nova capa de Harmatã

 

Como o Pedro Cobiaco vai aportar na Itiban nesse final de semana pra lançar Harmatã (junto do Shiko que vai autografar Lavagem), convidamos Paulo Cecconi para falar sobre a obra. Segue a resenha.

Harmatã, por Paulo Cecconi

O Pedro Cobiaco, quando resolveu fazer quadrinhos, pode não ter percebido por completo a aposta que estava fazendo (ou até nem deu bola). O rapaz carrega no nome e o legado do pai, Fábio, um dos maiores artistas do país (ainda que não tenha alcançado o reconhecimento à altura do talento).

Talvez, para parte do público mais jovem, esse patrimônio não se faça evidente, mas é algo que gera expectativas para quem o nome do pai é familiar.

Bom, o caso é que isso não foi problema algum para o Pedro. Ele pode ser jovem, pode estar no começo da carreira, mas é um começo muito promissor. O autor já pensa quadrinhos de uma forma peculiar, e o tal legado atrelado ao nome se provou uma herança de talento, e não um muro que deve ser pulado.

Foi em 2013 que Cobiaco publicou Harmatã. Chamou a atenção, rendeu o HQ Mix Novo Talento – Roteirista. Como foi produzido independente, alguns sortudos conseguiram uma cópia, muitos não.

Porém, em 2015, a Editora Mino resolveu, inteligentemente, relançar a HQ, com capa nova e tudo, e Harmatã está mais uma vez disponível para o público.

Capa antiga de Harmatã

Capa antiga de Harmatã

Harmatã é uma história curta, dividida em quatro partes, que se passa no curto momento de um telefonema. Os personagens são identificados, primeiramente, pelas diferentes apresentações da escrita: Lua em letra cursiva, e Fábio em letras garrafais separadas. Há também um narrador onisciente, expresso por letras minúsculas e separadas.

Cobiaco é competente em traduzir o sentimento de estranheza e desconforto da conversa, aquela situação inesperada e que esconde um significado importante por trás das palavras jogadas no ar. O diálogo inicia na primeira página, toda em fundo branco, e quando Fábio pede que Lua diga o real motivo da ligação, ela confessa seus sentimentos, sem hesitação, e surgem metáforas visuais, que permitem muito espaço para a interpretação do leitor.

Entendo a possibilidade da descrição acima dar a impressão de uma história piegas, mas garanto que não é o caso. Na verdade, é uma das forças da história, que transforma um momento simples em algo honesto e sensível, sem despencar para a breguice. Não é algo fácil de se fazer, as armadilhas são inúmeras, mas Pedro mantém a demonstração de suas capacidades e salta esse muro.

Na segunda parte, o diálogo no telefone acontece em meio à história visual dos protagonistas, desde o momento em que se conheceram até a partida de Lua para o exterior. Novamente, a estética delimita algumas sensações (o balão de Fábio é direto, seco, e o de Lua possui uma curvinha delicada). Neste capítulo, Fábio fala muito mais do que a moça, porém, em mais uma prova de que quantidade não é sinônimo de qualidade, é com apenas uma frase que Lua causa uma ruptura na dinâmica, e o capítulo termina.

A seguir, o leitor imerge no interior de Fábio, acompanhado pelo poema Elegia do Silêncio, de García Lorca, uma viagem causada pelas palavras de Lua e que colocam o rapaz em uma situação de autocontemplação sem controle. Novamente, as imagens do autor falam mais do que o texto.

Harmatã - página

A quarta parte tem uma maior participação do narrador e do próprio leitor. Existe uma carta, enviada por Lua, que Fábio diz ainda não ter recebido, mas que está lacrada em cima da sua mesa de cabeceira. Essa carta está no gibi, impressa, e, assim, quebra a quarta parede e se torna um objeto de interação do espectador com a história. Para Fábio, a carta revela mais do que diz. É um símbolo de um sentimento que foi analisado, ao qual não foi dado vazão por impulso, foi um momento de dedicação gravado em tinta, e que percorreu um caminho internacional para chegar até o personagem, e é dele (e do leitor) para sempre. É um documento registrado que representa alguém muito importante e uma época feliz na vida do personagem, que traz conforto, e que, por fim, o liberta para seguir seu caminho, “pro bem ou pro mal”.

A Editora Mino, que já tem no seu currículo publicações como L’Amour: 12oz, do Luciano Salles, e o ótimo e denso Lavagem, do Shiko, dá mais um exemplo de sua diversidade, qualidade e postura, ao apoiar mais um excelente quadrinista nacional

Harmatã é um gibi que não deve ser indicado para um só nicho ou faixa etária. É poético, simples, e de forte carga emocional. Não importa o tamanho do muro, Pedro Cobiaco tem capacidade e talento para atravessar para o outro lado.

Resenhista e tradutor de gibis, Paulo segue sua vida baseado nas seguintes palavras: continue estudando. Você pode acompanhá-lo no twitter, facebook, tumblr e blog.

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