Conversamos com Marcello Quintanilha

Mandamos umas perguntas por email pro Marcello Quintanilha e você vê abaixo o que ele respondeu. Sério, leia mesmo que a entrevistinha-aquecimento de quinta-feira está ótima!

Vale lembrar: hoje é lá no Cena HQ e amanhã é na Itiban. Apareça e ouça ao vivo as grandes ideias desse cara.

Muita gente diz que seu trabalho é de um cronista em quadrinhos. Como você recebe isso? Concorda?

Marcello Quintanilha – Partindo da noção de “crônica” mais estendida entre nós (ou seja, a de um relato curto, veiculado na imprensa, frequentemente construído a partir de um acontecimento real), essa definição do meu trabalho parece incorreta.

Contudo, o fiel da balança talvez seja precisamente o elemento pictórico, digamos assim; quer dizer, é fato que, embora meu desenho não represente a exata realidade fotográfica, ele efetivamente se apoia nela para traduzir aquilo que me interessa expressar, cristalizando assim a noção de uma construção ou de um relato, nesse caso pictórico, criado a partir de elementos da realidade propriamente dita.

Por esse ângulo, sou levado a concordar com a afirmação.

Suas histórias lidam muito com o cotidiano brasileiro. De que maneira estar fora do Brasil te ajuda e te atrapalha a produzir?

Marcello Quintanilha – Não me ajuda nem me atrapalha. Para que pudéssemos equacionar a questão dessa forma, teríamos que sucumbir à evidência de que meu trabalho se baseasse na captação de elementos da realidade próxima, tangível.

No entanto, esta não é, nem nunca foi, uma característica do meu trabalho.

Minhas histórias não representam nem são construídas tomando como base a realidade que está diante de mim, a partir da “observação” da realidade, porque isso implica uma inevitável distância entre o observador e a coisa observada; e eu nunca me interessei por essa proposta, sob nenhum aspecto.

O Brasil representado nos meus quadrinhos é o Brasil que está “comigo”, não o que está “diante de mim”. Minhas histórias são, portanto, o que eu sou.

A Espanha, onde vive, também tem havido muitos protestos. pelo que pode acompanhar, esses protestos têm algo a ver com os dos brasileiros?

Marcello Quintanilha – Não, porque a base de reivindicações é radicalmente distinta.

Embora a mobilização desse tipo de movimento siga um padrão parecido no mundo todo, na Espanha o alvo recai sobre a catastrófica administração do sistema financeiro que nos conduziu a uma crise mundial que comprometeu um equilíbrio social relativamente consolidado em vários países da Europa ocidental.

Nossos protestos, por outra parte, ainda têm como objetivo a revisão da aplicação dos recursos públicos em seu âmbito mais básico ou primordial.

A fealdade de Fabiano Gorila foi lançada como um pequeno álbum. Quando da sua republicação em Almas públicas, em um novo formato, você rediagramou as páginas e mudou a posição dos quadrinhos. O que você levou em conta para esse processo?

Marcello Quintanilha – O formato em Almas Públicas é o formato original dessa história. Quando a lançamos pela primeira vez eu a repaginei para o formato reduzido. Fiz o mesmo com “Três minutos de linhas” e “Granadilha”. Minha maneira de construir a narrativa me leva a retirar da página seu caráter de unidade narrativa, fator que reduzo ao quadro propriamente dito. Sob essa perspectiva, me sinto livre para reformatar as histórias sem comprometer sua estrutura narrativa.

Como surgiu a ideia para Tungstênio? E como foi o processo de criação da HQ?

Marcello Quintanilha – Surgiu a partir de uma notícia de rádio da rádio baiana, que eu escutava por volta de 2006 ou 2007, na qual um acontecimento similar ao contado no álbum tinha lugar.

O processo de criação seguiu o mesmo critério de minhas histórias anteriores; uma pesada produção de esboços e a subsequente finalização das páginas, tendo como base grafite e aquarela.

Você adaptou O ateneu de Raul Pompeia para os quadrinhos. Como foi a escolha do livro? Tem alguma ligação especial com essa obra?

Marcello Quintanilha – Eu tenho uma ligação especial com várias obras e no caso d’O ateneu não é diferente. Trata-se de um de meus livros favoritos, pelo rancor expresso nele, pela versão que o personagem central faz da realidade que o cerca, ou seja, ele expressa na narrativa “a sua versão” da realidade e jamais podemos perder isso de vista.

Adaptá-lo foi, portanto, muito fácil, porque durante anos havia formado uma ideia que me era muito cara do ambiente do colégio e dos personagens que o preenchem.

Pela técnica que empreguei, procurei transforma-los todos; personagens, prédio, objetos; todos, em uma só matéria.

O que é ser Niteroiense?

Marcello Quintanilha – É ter um tempo próprio. A cidade se desenvolveu ao longo dos anos em movimentos urbanísticos sempre em descompasso com os de suas vizinhas em especial o Rio de Janeiro.

Assim, temos nosso próprio andamento, nossa própria desordem e nossa própria angústia.

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4 respostas para Conversamos com Marcello Quintanilha

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