Entrevistamos Chico Felix e Pietro Luigi

Arte de Pietro Luigi

Arte de Pietro Luigi

Sábado vamos receber esses três dementes aqui na Itiban. Batemos um papinho rápido com eles por email. Veja o que o Pietro Luigi e o Chico Félix nos responderam:

Pietro Luigi

De onde saiu a ideia pra Banhero Selvagem?

Pietro Luigi – Bem cara, eu poderia falar que foi depois de uma noite violenta de sexo com uma travesti em uma praça abandonada onde nós cometemos os mais terríveis atos libidinosos e consumimos substâncias que deveriam ser investigadas pela NASA. Mas a verdade é muito menos espalhafatosa e convincente. Essa ideia (de girico, diga-se de passagem), surgiu na minha adolescência.

Nessa época aí (que abrange os meus 15 anos até hoje) eu fazia vários fanzines, e ficava experimentando formatos (sempre rolava uma diferença de diagramação nos xerox frente e verso, as páginas nunca batiam). Pra cada um eu dava um nome diferente, e um deles se chamava Banhero Selvagem, que acabou me cativando mais e eu resolvi mantê-lo. Minhas propostas com fanzine nunca foram o de ser exclusivamente de quadrinhos. Tenho muitos amigos que escrevem sobre muitas coisas, e escrevem muito bem, então queria colocar eles na roda. Em suma O Banhero Selvagem é um artifício que supre a minha necessidade de ler uma revista legal nos dias de hoje. Algo assim (guardada as devidas proporções) como uma General, Trip das antigas, Vice gringa, enfim um universo de desgraceiras muito rico e curioso. Como me considero melhor cartunista que escritor, os quadrinhos ainda acabam ocupando 80% da revista.

Os quadrinistas costumam dizer que é bem difícil fazer quadrinhos no Brasil. Pra quem trabalha no underground é mais difícil?

Pietro Luigi – Quadrinhos no Brasil é uma merda, teve uma boa fase nos 80, onde muita gente fez carreira, e pode realmente viver (e viver bem) com isso (Chiclete com Banana vendeu 100.000 exemplares, por exemplo). Para o underground sempre foi difícil e tenho pra mim que sempre vai ser, um pouco porque a gente não se ajuda muito também (assim como outras vertentes artísticas, tem muita gente que não quer sair do underground, e não se preocupa muito com a precariedade da coisa toda).

Pra ser sincero o mercado editorial é capitaneado por um monte de bundas-moles (of course que há exceções), mas hoje em dia as publicações independentes tem se organizado, participado dos eventos mainstream e atraído cada vez mais a atenção do público, sem depender de uma corporação. Mas convenhamos, o cenário de quadrinho adulto/underground é restrito a uma pequena parcela de consumidores. As grandes editoras têm investido no lance das graphic novels e livros de autor, e agora tem essa coisa fine arts nos quadrinhos, onde se valoriza muito o processo de impressão e o acabamento, e se fazem tiragens limitadas e tal, uma coisa mais a ver com o mercado de arte do que com o mercado editorial em si. Mas em suma, por mais brechas que os quadrinistas e as publicações venham ocupando, ainda assim os maiores eventos são sempre eventos frequentados por designers e cartunistas e ilustradores e artistas, saca? Ainda não estouramos a bolha, é um círculo que ainda carrega um ranço muito grande.

Posso te dizer que tiro o chapéu para o pessoal da Ugra, que começou um trabalho muito importante de catalogar e distribuir as publicações independentes, e esse sempre foi um problema muito grande no underground (em todas as vertentes), a distribuição. Como que alguém vai ler tua parada se essa pessoa nem sabe que ela existe, ou pior, muitas vezes ela conhece seu trampo, mas não sabe onde encontrar. O Alex da revista Prego também tem feito um lance bacana lá em Vila Velha, que é o de se integrar com a vida cultural da cidade, vivenciar a cena (outros editores/artistas também fazem isso, mas o Alex se destaca, acho que ele atrai mais mídia para essa coisa toda). Tem também o Raphael Fernandes, que com a MAD (uma das únicas publicações que ainda vende na banca) ele alcança um público leito mais jovem, e ainda assim consegue espaço para alguns quadrinistas um pouco mais podrera, como o Marcatti e o Chico Félix. E é claro, a Itiban, o pessoal daí também sempre está muito integrado com o que está rolando na cidade, a Mitie inclusive me deu a dica de uma palestra muito boa aqui em São Paulo que eu nem sabia que estava tendo hhauha Enfim, vejo que a Itiban está rompendo essa bolha, fazendo eventos, prestigiando a os artistas, enfim, participando efetivamente da cena local/nacional, e isso tem interessado um público diverso e não só a classe artística e literata. Fora isso sempre tem os trend topics da web. Tem muitos caras que se dão muito bem com seus blogs e tem milhões de fãs, acho que o primeiro caso foi o Dahmer, mais recente tem o Ryot, e agora a Garota Siririca. A Maria Nanquim também presta um baita de um serviço na divulgação dos cartunistas via Tumblr e Facebook, e tudo isso ajuda a expandir as fronteiras, a quebrar o casulo.

Existe uma relação muito próxima entre HQ e música. Como isso aparece no teu trampo?

Pietro Luigi – Música, a minha eterna frustração, aquela mulher gostosa que eu não consigo comer hauhauha. Bem, é interessante essa relação, muitas histórias minhas tem nomes de música, eu vivo pesquisando sobre som, muitos amigos meus tem banda, eu mesmo tive algumas, e componho umas tranqueiras de vez em quando. Também faço muitos desenhos pras bandas (cartazes, capas, camisetas e etc). E isso é muito engraçado (trágico também), porque o cenário da música underground é tão “favorável” quanto ao dos quadrinhos hehe. Os mesmo problemas, com outros nomes.

Mas tem outra coisa, tava refletindo esses dias: tenho escutado bastante garage rock, rockabilly e psychobilly… Eu vejo como todos os pôsteres, camisetas e capas de disco dessa cena influenciam esteticamente o meu trabalho. Se você pega bandas como o Cramps, o Ramones, o Velvet Underground, Kraftwerk e é claro, o David Bowie, você percebe essa preocupação estética dos caras. O David Bowie talvez tenha sido o cara que levou isso muito mais a sério, e é interessante você ver que além do som existe essa preocupação visual (não gosto de artistas que são só visuais, mas acho essa uma preocupação muito válida). Existe a preocupação de transmitir todo um conceito, por mais subjetivo que ele seja. E se você ler entrevistas desses caras, eles vão mencionar muitos cineastas, artistas plásticos e escritores, que vão te fazer querer correr atrás dessas referências, e que mais pra frente vão ser algumas das suas referências também. Nem vou entrar no mérito da questão das capas de disco do Marcatti, do Crumb, do Chico Félix, do Charles Burns, do Angeli e etc., nem dos cartunistas que também tem banda, porque se não isso vai virar uma tese de mestrado já.

Você é influenciado pelo trabalho do Marcatti?

Pietro Luigi – Adoro perguntas retóricas huahuah

Pô, acho que é muito clara a influência do Marcatti nesse meu traço sujera, cheio de hachuras e gosmas, gosto muito do jeito que ele trata esse lado orgânico da vida. A parceria dele com o Glauco Mattoso é demais, acho que não teria um cara melhor que o Marcatti pra ilustrar as histórias do Glauco. Gosto também de como os personagens dele são pessoas possíveis: são caras punheteiros, caras que têm problema em lavar a louça, mulheres que têm celulite, GOSTOSAS QUE TÊM FURÚNCULO, CARA. Acho esse tipo de coisa genial, esse lance de retratar caras cotidianos com dilemas ordinários, isso me envolve bastante.

Além disso, o Marcatti pessoa (não o artista) também é muito interessante. Toda aquela história da Pro-C nos anos 80, de ele publicar o material de caras que tavam começando, entre eles o Mutarelli. Pô, isso é muito bonito. Fora isso ele chega a ser perturbador de tão talentoso. Como se não bastasse o cara fazer todos esses quadrinhos, ele ainda é luthier e conserta carros antigos, é de fazer qualquer um se sentir medíocre!

Chico Félix

Quando você resolveu que tinha que fazer uma HQ como a Gente Feia na TV ou Vomitorama?

Chico Félix – Eu já fazia zines, cartazes, capas de disco, estava envolvido com música há muito tempo, e tinha um selo para lançar material das minhas bandas e dos meus amigos (Café & Raiva), mas estava cada vez mais envolvido com desenho e quadrinhos e, por sugestão do pessoal do selo, com ajuda do Alex da Prego, fiz o Gente Feia e começamos a vender a revista dentro dessa estrutura, em shows, pelo correio, e aos poucos fui deixando o selo de lado e me concentrando mais nesses outros lançamentos que tem a ver com meu desenho.

O Vomitorama é um retorno aos fanzines- colaborando com a galera da Espanha dos zines Rattenkonig e FemDom fiquei muito inspirado, e resolvi fazer um zine em xerox numerado e limitado juntando material que sobrou do Gente Feia 2 e um material novo, e fiz a Bera Mosca exclusivamente pra lançar quadrinhos. O zine vai ser lançado nesse evento da Itiban dia 26 e quando acabarem é hora de fazer outro. Impressionante como a qualidade do xerox melhorou! Esse zine ficou muito melhor do que eu esperava, valendo cada centavo dos 2 reais que ele custa.

Os quadrinistas costumam dizer que é bem difícil fazer quadrinhos no Brasil. Pra quem trabalha no underground é mais difícil?

Chico Félix – Você tá falando de ganhar dinheiro. Pelo que eu vejo, é difícil ganhar dinheiro com qualquer coisa artística e cultural no Brasil. Não só quadrinhos. Mas as coisas que eu faço tem uma saída legal, se pagam e tudo o mais, ainda que demore um pouco, mas são feitas numa escala bem menor e quase sempre vendidas diretamente pro público. Tenho a impressão que lá fora também não é mais essa boiada toda, dependendo do tipo de quadrinho, os caras têm uma profissão paralela pra pagar as contas. A diferença é que lá, lavando prato tu consegue ter uma vida minimamente decente, coisa que aqui nem em sonho, nem gente com diploma universitário tem garantia de nada. O lance é dar seu jeito e fazer esse troço, nem que você tenha que pessoalmente tirar a tinta do polvo pra fazer nanquim.

Existe uma relação muito próxima entre HQ e música. Como isso aparece no teu trampo?

Chico Félix – No meu caso tem tudo a ver, porque além do que já falei na primeira resposta, comecei lendo e desenhando quadrinhos, mas quando conheci o punk rock (ou rock sujo underground ou qualquer outra denominação pra esse troço), principalmente Ramones, Cramps, Dead Boys, vi que estava em casa. O próprio jeito de eles tocarem, o lance que você não precisava vir de outro planeta nem ser um erudito, com a experiência de um moleque qualquer do subúrbio você poderia se expressar, fazer sua arte. Muito inspirador! Os Ramones até frequentaram a mesma escola que o Peter Parker, sabia? Forest Hills High. Pra mim esse negócio todo é parte de um grande todo de contracultura, esculhambação e vida vivida intensamente.

Você é influenciado pelo trabalho do Marcatti?

Chico Félix – Lógico! Leio os quadrinhos dele desde muito cedo, conheci o trabalho dele na Chiclete com Banana, ele ia mais longe que todos os outros e isso ficou marcado no meu cérebro. Sempre achei que ele é o autor que melhor retrata a vida na cidade no Brasil, o subúrbio, as histórias, as personagens, o cenário são bem familiares.

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