Entrevista com Vitor e Lu Cafaggi

Desenho de Lu Cafaggi com seu irmão, Vitor

Mantendo a tradição de entrevistas com os convidados da Itiban, mandamos umas perguntas pros irmãos Cafaggi por email. Eles simpaticamente nos responderam, veja abaixo.

Laços tem uma pegada emocional muito forte. Como surgiu isso na história?

Vitor – Acho que todo quadrinho que Lu e eu fazemos tem um pouco disso. A gente se entrega e se expõe muito em cada trabalho nosso. Sempre tentamos buscar dentro de nós mesmos as próximas histórias que iremos contar. Sempre tentamos ser o mais sincero possível nessas histórias. Acredito que essa carga emocional vem daí, a gente quer fazer histórias que toquem as pessoas de algum jeito, que não sejam descartáveis. E com Laços não foi diferente.

Lu – Puxa, mas o Tinho disse tudo. Acho que é isso mesmo. Nem parece uma escolha nossa, necessariamente. A gente não pensa “hmm… quero que essa história seja bem emocional”. A gente se abre e as histórias nascem disso. Quando decidimos as coisas que vão acontecer na história que queremos contar, antes de começar esse processo de contar, a gente tem uma necessidade bem intensa de encontrar um vínculo emocional que nos permita identificar um pouco da gente mesmo na história, porque só assim conseguimos sentir que estamos sendo verdadeiros ali. E se a gente não se sentir verdadeiro em alguma medida, não vale a pena contar. A gente faz quadrinhos pra gente se comunicar com os outros, e não pra distrair os outros a respeito de quem a gente realmente é ou de quem eles realmente são. No, caso de Laços, encontrar esse vinculo emocional foi fácil pra caramba, porque a gente acompanha a Turma da Mônica desde que somos crianças, a gente sempre foi apaixonado por todos aqueles personagense e pelos (perdão) laços que os reúnem.

 

Esse é o primeiro trabalho conjunto de vocês, não? Teve alguma dificuldade ou facilidade por vocês serem irmãos?

Vitor – Foi ótimo trabalhar com a Lu. Sempre é. Sempre peço a opinião dela em todos os meus trabalhos, em cada tirinha que faço. Na graphic foi melhor ainda, porque pudemos conversar sobre a história por muito tempo, dessas conversas surgiram várias ideias para cenas e referências escondidas. Ter ela fazendo o acabamento dos meus desenhos também enriqueceu muito o produto final. Fazer a graphic em dupla facilitou muito o processo e deu mais segurança pra gente também.

Lu – Foi a primeira em que me senti realmente segura durante o processo de produção de um quadrinho. Normalmente, a minha “rotina” de trabalho é muito solta; é a coisa mais distante de uma rotina, pra dizer a verdade. Então é sempre muito fácil eu me perder no meio de tudo e me sentir completamente insegura e vulnerável durante o processo (em doses nada saudáveis). Fazer as páginas com o Tinho, tendo sempre horários certos que me permitiam respeitar o ritmo dele, foi uma verdadeira aula pra mim: aula de narrativa, de composição das cenas, de disciplina, organização, planejamento, perseverança. Uma boa aula de desapego com as páginas também. O Tinho é mais prático e sabe contar uma história em quadrinhos muito melhor do que eu, porque ele sabe exatamente o que deve ser valorizado, o que deve ser tratado com mais sutileza… Eu fico sempre perdida no meu caos de perfeccionismo e, se me deixarem, fico um ano debruçada em uma única página.

Vitor, seu personagem Valente é criado em tiras seriadas. Você tem intenção de criar uma graphic novel como Laços pra ele?

Vitor – Nunca tinha pensado em fazer uma graphic novel do Valente, e gostei da ideia. O José Aguiar fez isso com a tirinha dele, Folheteen, e ficou muito bom, deu pra explorar melhor o espaço e os limites do quadrinho. O que eu tenho são historias curtas do Valente, de dez páginas, mostrando situações do passado dele. A primeira história dessas já está 100% pronta. Tenho ideias pra mais três dessas. Só não defini ainda como serão publicadas. Mentira, já defini sim, mas não quero estragar a surpresa agora, tá muito cedo. Mas gostei da ideia de uma graphic novel dele.

Lu, fazer Laços mudou sua maneira de pensar quadrinhos?

Lu – Ao fazer uma história comprida, todas as minhas fraquezas como contadora de histórias se fragilizam ainda mais. Então, ao fazer Laços, minha maneira de pensar quadrinhos (tanto o produto final quanto o processo de construção) mudou completamente, sim, por tudo o que eu descrevi como as vantagens de fazer o projeto junto com o Tinho. Foi a minha primeira experiência com uma história comprida, que segue uma sequência de acontecimentos reais que se constroem, se cruzam, se desfazem, refazem e crescem juntos. Fazer a história com o Tinho não só me ajudou a compreender essa tessitura da narrativa, como também me ajudou a perceber como que a organização, a disciplina e o planejamento são fundamentais para nos ajudar a construir essa história com a segurança e o cuidado diário que ela pede.

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4 respostas para Entrevista com Vitor e Lu Cafaggi

  1. Pingback: Obrigado! | Blog da Itiban

  2. Nossa!!! É muito bom conhecer mais de vocês e do processo emotivo do trabalho.
    Sucesso!!!

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