Financiamento coletivo

Por Lielson Zeni

Em qualquer mesa de debate entre quadrinistas independentes, como várias dessas que aconteceram na Itiban, sempre houve um tema comum, por mais diferentes que fossem os trabalhos: o financiamento.

Se as editoras normalmente pagam a conta e retornam parte do seu lucro para o artista, os independentes (uso esse termo que é renegado por alguns, mas acho que aqui explica bem) além de fazerem suas HQs ainda precisam armazená-las, distribui-las, vendê-las e pagar por isso, torcendo para que haja algum retorno financeiro.

Não são poucos os artistas que fazem dos quadrinhos um segundo trabalho e reinvestem todo o dinheiro obtido com as primeiras obras nas próximas, nunca tirando seu lucro – se é que aparece o lucro.

Por isso que alguns saem em busca de investidores e patrocinadores. Mas como convencer alguém a investir 10 mil reais em uma revista em quadrinhos no Brasil? Que garantias reais é possível dar para esse financiador?

No ano passado, surgiu uma ideia: Eduardo Damasceno, Luiz Garrocho e Bruno Ito meteram as caras no site Catarse para conseguir financiamento para seu projeto. A proposta é simples: em vez de uma pessoa bancar os R$ 25 mil necessários para o projeto, muitas pessoas contribuem com menos dinheiro e recebem prêmios proporcionais à quantia investida.

O trio conseguiu a grana que precisava e lançou o ótimo álbum Achados e Perdidos, com direito ao CD com as canções de Bruno Ito, para ser ouvido durante a leitura da HQ, parte do projeto. Logo depois, outro projeto ligado aos quadrinhos não teve a mesma sorte. A Banca de Quadrinhos não conseguiu ir para o FIQ.

Em 2012, outros 13 projetos de publicação de quadrinhos surgiram no Catarse – sem falar em uma adaptação dos quadrinhos para vídeo, em outra categoria. Desses todos, dois já foram frustrados e um conseguiu o financiamento. Nos próximos 30 dias, mais cinco projetos serão encerrados: Café Espacial 11, Beijo Adolescente – Segunda Temporada, Last RPG Fantasy, Salomão Ventura – Caçador de Lendas 3 e Happy Slap!

Os outros cinco, Petisco, Ryotiras, Capa Preta, Residencial Abaeté e Tirinhas do Zodíaco, têm um pouco mais de tempo. Mas o que faz um projeto desses dar ou não certo? Divulgação, notoriedade de quem faz, contrapartida oferecida? O Rafael Coutinho, que está nessa, fez uma reflexão sobre esse processo.

Alguns deles estão muito próximos de conseguir, outros longe. Será que tantos projetos simultâneos não se atrapalharam? Ou isso chama atenção para o crowdfunding como um todo?

Se houver um grande desastre e apenas poucos consigam a publicação, espero que esse modelo de obtenção de recursos  não seja abandonado. Se todos, ou maior parte deles, trouxerem suas HQs ao mundo, acredito que haverá ainda mais projetos na plataforma coletiva. Mas será que existe uma bolha para o financiamento coletivo, um limite de investimentos?

De qualquer forma, novas ideias já surgem, como a venda prévia ou sob demanda.

Tantas perguntas, alguns projetos, muitos palpites e muita gente precisando de grana para financiar sua arte.

Mesmo sem as respostas, é libertador a possibilidade de que cada pessoa possa colaborar com um pouco naquilo que bem entender. É mais ou menos como se as relações comerciais ganhassem um outro ponto de vista, mais direto e bem focado.

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9 respostas para Financiamento coletivo

  1. Digo Freitas disse:

    A tendência da popularização é tornar o crowdfunding uma livraria de apostas. Você aposta num livro que gostaria de comprar.
    Desses listados de 2012 eu já apoiei 3 e acompanho-os torcendo para quem deem certo, pois quero recebê-los. Mas se por um triste destino eles falharem, terei minha expectativa, digo, dinheiro, de volta. Mais triste pela objetivo não alcançado do que pelo investimento perdido.
    Temo pela bolha e por muitos curiosos afundando em uma experiência sem preparação, mas não é isso o que ocorre também fora do financiamento colaborativo?

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  3. Pessoal, beleza? Sou um dos colaboradores do blog do Catarse e gostaria de saber se vocês teriam interesse em replicar este post por lá? A gente reproduziria na íntegra, com link para vocês, é claro, e com assinatura do Lielson Zeni. Que tal?

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