Quadrinhos beatniks

Quando o jovem Kerouac punha o pé na estrada e passava noites insones teclando selvagemente em sua máquina de escrever os seus livros e um Allen Ginsberg sonhava em uivar o poema fundador para uma geração de literatos, William Burroughs já era um senhor nada respeitável e pai de família.

Herdeiro da família que criou as máquinas de calcular Burroughs, o velho Bill foi o mais inventivo e ousado escritor da geração beat. Com uma visão bastante desencantada e direta do mundo, sua relação com drogas não eram de uma experiência enaltecedora do espírito, mas uma opção biológica de tornar-se um junky e experimentar rotineiramente as viagens dos mais diversos entorpecentes.

Segundo ele, tudo ficaria bem se a droga não faltasse, pois as células de um viciado se tornavam dependentes da substância como de água e bastava mantê-las abastecidas para que a vida seguisse normalmente – à parte da questão da marginalidade, claro.

Essas experiências estão no pesado livro Junky (Ediouro), que não recomendamos a leitura para as pessoas mais impressionáveis. Apenas outros três títulos além desse estão disponíveis no Brasil (fora algum material de correspondências): Almoço nu (Ediouro), O gato por dentro (LP&M) e E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques (Cia. das Letras), em parceria com Jack Kerouac.

Inseto-máquina-de-escrever do filme Naked Lunch, de David Cronenberg – no Brasil, o filme se chama Mistérios e Paixões

Burroughs desenvolveu uma técnica de escrita que chamou de cut-up, muito próximo do conceito da colagem nas artes visuais, que pode ser entendido lendo o Almoço nu. E toda essa experimentação chegou ao ponto dele escrever uma história em quadrinhos, em um período que romancistas e roteiristas de quadrinhos não dividiam a  mesma vida.

A HQ foi escrita e planejada por Burroughs com a arte de Malcom McNeill e nunca foi publicada. Para sorte dos fãs do escritor, a Fantagraphics conseguiu os direitos da graphic novel e vai lançá-la (aleluia!).

 

A mesma dupla já havia publicada uma HQ chamada de The unspeakble Mr. Hart, em uma revista inglesa chamada Cyclops. Desse trabalho surgiu a ideia para desenvolver essas páginas e criar Ah Pook is here, que de acordo com o próprio Bill é “um quadrinho no sentido em que tem sequências inteiras de ação em desenhos. Mas também existem 60 páginas de texto, assim, é algo entre um quadrinho e um livro ilustrado. Malcom McNeill se encarrega dos desenhos. É muito mais parecido com o formato dos códices maias, que eram meio quadrinhos”.

Tem muito mais informação sobre essa HQ nesse site em espanhol. Aguardamos ansiosos esse lançamento.

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