Texto de convidado: Ray Bradbury, por Álvaro Domingues

Em 6 de junho de 2012, em Los Angeles, morreu Ray Bradbury, aos 91 anos.

Bradbury foi o ultimo integrante do trio ABC (Asimov, Bradbury e Clark), que forma a base da ficção científica clássica. Diferentemente das obras de Clark e Asimov, nas quais a Ciência e Tecnologia eram os astros, Bradbury foi um escritor que se centrou mais no drama humano, colocando a tecnologia apenas como pano de fundo. Por esse motivo, ele mesmo não se considerava um autor de FC, mas de fantasia. Dizia ele: “A Ficção Científica é sobre coisas que podem acontecer. Eu escrevo Fantasia, sobre coisas que nunca vão acontecer.”

Os que adoram classificar as coisas diriam que Bardbury pertenceria à vertente soft de ficção científica (em oposição à ficção científica hard), que é justamente as ciências humanas acima das físicas e biológicas. Mas, para Bradbury, que rejeitava o rótulo de FC, isso não fazia a mínima diferença. Independentemente de classificações, ele escrevia. E muito bem.  Bradbury publicou um total de 11 romances e mais de uma centena de contos, agrupados em várias coletâneas.

Seus textos são construídos dentro de uma linguagem poética, carregados de imagens que parecem saídas de sonhos. Podemos sentir isso, sobretudo nas suas três principais coletâneas: Os Frutos Dourados do Sol, Crônicas Marcianas (ou Contos Marcianos) e O Homem Ilustrado.

Boa parte de sua obra foi escrita nos anos 1950, quando o sonho americano convivia com a guerra fria – que moldou muito do que ele escreveu. Isso aparece muito bem no seu principal romance, Farenheit 451, uma distopia que critica duramente a sociedade de consumo, o autoritarismo como forma de controlar a população e os meios de comunicação de massa, sobretudo a televisão. Um detalhe bastante interessante: a televisão no romance é interativa, mas com resultados vazios, lembrando os reality shows e a internet de hoje. O tema do romance centra-se na destruição de livros (Farenheit 451 é a temperatura em que o papel se queima), revelando o ódio que a classe dominante tem da cultura (vários governos totalitários queimaram livros em praça pública). Curiosamente, no romance, quem queima os livros são os bombeiros.

O livro tornou-se um ícone da luta contra a censura, mas, segundo o próprio autor, Farenheit 451 era mais do que isto: mostrava como a mídia, sobretudo a TV destrói a leitura.

Bradbury também escreveu vários contos de terror. Seus contos deste gênero focam no cotidiano e em coisa simples que atingem dimensões assustadoras e simbólicas, por exemplo (ambos presentes no livro O País de Outubro): O Esqueleto, no qual o protagonista tem como inimigo o seu próprio esqueleto e O pequeno assassino, história de um bebê que simplesmente deixa um brinquedo na escada para fazer seu pai cair.

Fez também algumas incursões no gênero policial do qual podemos destacar: A Morte é transação solitária e Cemitério para Lunáticos, ambos ambientados na Hollywood dos anos 30 e 40.

Foi roteirista de cinema e TV, adaptando muito de seus próprios contos (O Teatro de Ray Bradbury). Vale destaque para os roteiros do filme Moby Dick e da animação Nemo na Terra dos Sonhos.

Ele nos deixou também seu método de escrever: O Zen e a arte da escrita. Neste livro ele se posiciona muito claramente: “escreva por que gosta e sobre aquilo que gosta”. Um resumo de sua vida.

[Álvaro Domingues é contista, cronista, resenhista e poeta. Publicou em 2010 o livro Sombras e Sonhos, pela Balão Editorial.  É também blogueiro, mantendo o Blog do Pai Nerd. Colaborou também nos sites Blocos OnLine, no Projeto de mini e microcontos da Fábrica de sonhos e PODespecular. Tem contos publicados na revistas Bits, Nossas Edições e nos independentes Sommium e Adorável Noite. Foi editor das revistas Microhobby e MSX Micro e redator na revista Nova Eletrônica.]
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2 respostas para Texto de convidado: Ray Bradbury, por Álvaro Domingues

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